Manual de Instruções (não impositivo) para ver Quimeras do colectivo Karnart no Mosteiro de São Bento da Vitória

- publicidade -

É no ‘seio’ de uma atmosfera de penumbra e algum calor à mistura que somos acolhidos no Mosteiro de São Bento da Vitória. O móbil desta ida da equipa do Global News até àquela simbólica estrutura patrimonial do Porto é o espectáculo-exposição Quimeras, a mais recente criação do colectivo Karnart. A estreia é já amanhã, dia 7 de Junho, sexta-feira, às 21h00 e pode ser vista também no dia 8, sábado, às 19h00, bem como no domingo, dia 9, pelas 16h00.

O regresso do colectivo Karnart, após o bem-sucedido Ilhas, uma incursão ao universo literário de Raul Brandão que de igual modo se moldou num registo de instalação performativa, num espectáculo que remonta a 2013, e que decorreu no mesmo local (ver aqui), faz-se, desta vez, de uma inspiração escultórica baseada no mármore do corpo jacente de Cristo, Cristo velato (1753), de Giuseppe Sanmartino, exposta no Museo Cappella di San Severo, em Nápoles.

A combinação das duas dimensões, a das artes visuais e das performativas estão para esta criação a cargo do artista plástico Vel Z e de Luís Castro da Karnart.

Nos claustros do Mosteiro de São Bento da Vitória, a escolha do lugar está longe de ser despicienda para o efeito, há quatro donzelas, que um pouco mais adiante constataremos serem freiras, e três delas encontram-se estendidas, desnudas e com o corpo debruçado sobre igual número de estrados dispostos a alguma distância em redor de um túmulo de grande dimensão. Este último é opaco e coberto por uma malha enredada de cor preta de fora a fora.

créditos: Cinda Miranda

Uma outra dama, está ‘enrainhizada’ (pedimos desculpa pelo neologismo, mas faz todo o sentido, neste caso até todo sentado, ou toda sentada para ser mais correcto), tem o rosto coberto por uma máscara negra e enredada, a pose é quase imóvel, mas altiva e sobranceira face às demais.

As damas parecem bailarinas numa caixa sem cobertura: os movimentos que desencadeiam são paulatinos, melados e suaves. Reside nelas um contraste entre a definição de um profano erótico e uma intrínseca devoção. Há pequenos caixotes luminosos, fontes de luz, que dão a perspectiva ao observador. Vestidas de um branco imaculado, com véus também eles alvos, a cabeça coberta com uma espécie de chapéu/barrete a assemelhar-se aos das criadas da época vitoriana, elas parecem ensaiar de forma lenta a saída de um casulo.

créditos: Cinda Miranda

A ‘abadessa’, sentada no seu trono, mais parece uma truculenta viúva negra ao comando das operações. Passados alguns momentos, as três vão-se soerguendo nos respectivos habitats sempre debaixo do espectro visual da ‘Madre Superiora’.

Para além da narrativa, impõe-se dizer que há uma banda sonora que marca o compasso das cenas e dos movimentos. À medida que retiram os véus, de forma sincopada mas já não em simultâneo, as caixas de luz assumem tonalidades diversas: rosa, azul e verde. Desatam os cordões de uns botins brancos que têm calçados e retiram-nos com estilo e atitude sexy, num delicioso strip-tease que faria as delícias de um qualquer podólogo.

Em seguida, agitam-se um pouco e erguem-se deixando transparecer uma saia-balão, daquelas típicas do século XIX, com as crinolinas a conferirem a dimensão referida aos vestidos. Num momento pouco posterior, abandonam os estrados em passo atenuado e carregam as caixas de luzes até ao túmulo. A viúva negra também já deixou o seu trono para prestar tributo ao Cristo depositado no túmulo. Os quadros cénicos são de uma estética irrepreensível. Os saltos da Madre Superiora impressionariam um seguidor do movimento punk, mas talvez o registo aqui seja um pouco mais gótico. A abadessa enrola-se no manto preto para desvendar o corpo do Messias defunto.

A pose escultórica das quatro mulheres ganha fôlego na pose final. O trabalho da Karnart é assumidamente belo no contraste contínuo entre o preto e o branco. E a forma conceptual adoptada é de uma notória e positiva provocação.  Há mitologia e fantasia de sobra nestas Quimeras.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.