Créditos: Susana Neves
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Locker Room Talk, peça cuja gesta criativa tem a chancela do dramaturgo e actor escocês Gary McNair, está por estes dias no palco por via da companhia Mala Voadora. A escolha do local para pôr em cena o trabalho recaiu numa das salas cimeiras do Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto, neste final de semana (4+5 de Outubro). A encenação está a cargo de Jorge Andrade.

A peça é representada por quatro mulheres que interpretam expressões e comentários proferidos por homens machistas e misóginos. É incómoda pelo teor discursivo contido nas conversas gravadas por McNair com pessoas do sexo masculino, gente anónima do quotidiano real, e não personagens (embora de certa forma se convertam nisso no palco à medida que ‘são ditos’), de diversos quadrantes da sociedade. O dramaturgo falou, para o efeito, com médicos, advogados, mineiros e taxistas, passando por culturistas e trabalhadores fabris de países como Escócia, Austrália, Estados Unidos e Reino Unido que, confrontados com o estímulo de se pronunciarem desassombradamente sobre mulheres, discorreram toda a espécie de comentários.

Importa referir, para melhor enquadramento e compreensão dos propósitos deste trabalho teatral, que a génese, o ponto de partida, foi a expressão inqualificável de Donald Trump “Grab them by the pussy” (uma de múltiplas de carácter vincadamente sexista e ofensivo pronunciadas pelo actual Presidente dos EUA), e que foi tornada pública em Outubro de 2016.

A intenção de McNair com esta iniciativa junto de um significativo contingente de homens era a de saber se os outros eram melhores do que aquilo que Trump representava para a globalidade da condição masculina, em termos globais. A narrativa discorre assim sobre o discurso cru, desbragado, ofensivo e violento que Crista Alfaiate, Isabel Zuaà, Tânia Alves e Mariana Magalhães expõem com evidência expressiva, apenas sentadas em bancos e com quatro microfones à frente. O registo cenográfico é minimalista, porque o que interessa é a palavra, afinal estamos no domínio do teatro da palavra.

“Locker Room Talk” – O discurso do 'ás de cópulas' no Mosteiro de São Bento da Vitória | Locker Room Talk, peça cuja gesta criativa tem a chancela do dramaturgo e actor escocês Gary McNair, está por estes dias no palco por via da companhia Mala Global News Portugal
Créditos: Susana Neves

“Assim que o li, achei-o logo muito violento, e questionei-me: como é que isto vai ficar no palco? Que perspectiva? E logo que eu começo a trabalhar o texto e a decorar, tinha de fazer algumas paragens, precisamente porque é violento. E de alguma maneira temos de o incorporar, é muito duro, mesmo!”, refere Crista Alfaiate na conversa pós-ensaio de imprensa em que o Global News esteve presente. Isabel Zuaà partilha (d)o mesmo raciocínio lógico da companheira de palco no processo:” É bastante duro… ter que decorar e falar sobre estas questões (misoginia/ machismo/ racismo) e depois artisticamente ter de incorporar estes textos, foi de facto muito violento”, concluiu de forma copiosa a actriz.

Numa visão um pouco mais crítica, diremos que “Locker Room Talk” se apresenta como um documento politicamente incorrecto numa conjuntura de pensamento que navega a todo vapor no sentido contrário: o do politicamente correcto. Esta dicotomia é interessante, faz com que a peça, melhor, o cerne da mesma que é o texto e o discurso que ele consagra, sejam merecedores de uma refutação colectiva óbvia e justificada por parte do espectador (não se espera outra coisa no final do espectáculo), mas não é de todo polémica, porque todos vão aceitar os princípios morais subjacentes à mensagem veiculada. E, por conseguinte, a peça é importante pelo que diz, mas sobretudo pelo que fica por dizer, um preceito muito associado aos filósofos pré-socráticos, como sabemos. Verter um texto desta natureza para o palco, fazendo desta inversão da identidade sexual em termos de interpretação a componente essencial dessa teatralidade, é talvez a maior virtude de “Locker Room Talk”.

O contraponto suscita a curiosidade numa versão teatralizada de discursos no mesmo caldo temático da peça, mas desta feita num trabalho orientado para o discurso entre mulheres heterossexuais a falarem dos homens ou o que dizem os elementos da comunidade LGBT entre eles, sobre os que partilham o mesmo género. Quais as diferenças existentes? É uma boa interrogação para um ‘dia de reflexão’. Dramaturgos, precisam-se.

De Gary McNair/tradução Marco Mendonça/encenação Jorge Andrade

desenho de luz Rui Monteiro/cenografia e figurinos José Capela/assistência de encenação Maria Jorge

produção Andreia Bento, Mariana Dixe, Patrícia Costa

interpretação Crista Alfaiate, Isabél Zuaa, Mariana Magalhães, Tânia Alves

Produção mala voadora

Sexta – 21h00/sábado 19h00

Apoio Câmara Municipal do Porto/Criatório

dur. aprox. 45’ M/18 anos

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