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Há uma mole humana, uma massa compacta de gente a aguardar pelo concerto. São 22h12 e só um quarto de hora depois é que os Linda Martini entrarão em palco para gáudio dos que (des)esperam: a cada borrifo de fumo há alguns que exultam a julgar que isso se traduz no início da epifania. As hostes excitam-se com os indícios de que isso possa acontecer a qualquer momento.

E a verdade é que acontece às 22h26 com a música cujo título é um trocadilho, assim “Semi Tédio dos Prazeres” irrompe pelo espaço adentro com um som algo “baço” na fase mais inicial. A sujidade sonora não tardará a dissipar-se, mas a névoa com que os quatro “Cavaleiros do Apocalipse” se apresentam no estrado vai permanecer durante algum tempo, algo que acaba por conferir uma beleza singular aos olhos do observador: o sombreado e o recorte das figuras que sobressaem.

Aquela voz que parece, a espaços, incitar a uma rebelião e da qual o é detentor André Henriques espalha-se com fulgor, Hélio Morais não poupa no matraquear sonoro da bateria. Pedro Geraldes, na guitarra, parece querer tomar o pulso à ambiência e Cláudia Guerreiro procura coser a melhor linha de baixo, nesta altura.

Segue-se outra música do álbum homónimo da banda. Do mais recente Linda Martini surge assim e logo de seguida “Caretano”, o ritmo é frenético o que comprova o propósito de que estão dispostos a partir a loiça toda em palco. Clarões de luzes banham o público e os músicos, a comunhão entre os do palco e os que vieram para assistir vai ganhando lastro. André Henriques agradece: “Obrigado pela casa esgotada!”. Recebe uma efusiva salva de palmas com gritaria à mistura. O calor adensa-se e Cláudia arrisca a promessa perante o público de poder tirar as meias.

créditos: Diogo Baptista

“Boca de Sal”, o tema que dá origem ao segundo single ‘sacado’ ao também derradeiro álbum, faz mossa a preceito, os Linda Martini parecem querer levantar voo, os músicos agitam-se em frenesim e o público mimetiza-os nesta acção: todos “ao mesmo tempo”.

A empatia com assistência revela níveis ainda mais altos aos primeiros acordes de “Panteão”, do registo de longa duração Turbo Lento (2013). “Belarmino”, o tema evocativo do pugilista celebrizado no filme do cineasta Fernando Lopes, entra em conformidade numa casa esgotada, ele que integra o álbum Casa Ocupada, de 2010.

A cadência energética está ao rubro, propagada pela sala. O concerto, adivinha-se, irá culminar numa atmosfera celebrativa, mas com suor cozido à mistura, ninguém se vai importar muito com isso. “Quase Se Fez Uma Casa” é outro dos temas fortes do trabalho resultante da última fornada de canções e é também apreciado pela assistência. André Henriques atira com ironia humorística: “Boa noite. Vamos começar agora o concerto!”, uma piada feita a prenunciar “Febril (Tanto Mar)”, a música de Turbo Lento (2013). A vermelhidão do palco é a envolvente cor sonora para uma deleitada progressão instrumental de deleite individual e de resultado coeso em termos de sonoridade colectiva.

E se em boa verdade já ninguém necessitava de uma “Lição de Voo nº1”, pois nesta fase já muita gente andava de pés no ar e aos saltos, bem poderá dizer-se que o tema integrado no seminal EP da banda lisboeta caiu que nem mel na sopa nesta fase do espectáculo. O singelo plástico translúcido que serve de ciclorama ao palco da banda ganha efeitos inesperados. A voz de André Henriques pronuncia-se assumindo uma dose de lirismo que é quase um impulso de revolta e a catarse grupal não se faz esperar.

Quando se anuncia “Domingo Desportivo” é quase impossível não pensar no incontornável Mário Zambujal, uma figura sobre a qual  ¾ dos presentes nunca terá ouvido falar. O desenho melódico do tema, com o baixo de Cláudia Guerreiro a pontuar o ritmo das guitarras e da bateria ganha um envelope especial.

créditos: Diogo Baptista

E o mote proposto de apresentação integral do derradeiro Linda Martini vai-se consolidando, “Cor de Osso” é a confirmação disso mesmo. Os músicos estão banhados de suor, o público não menos, e até nisso o Hard Club parece ser o mesmo barco para ambos. “Unicórnio de Santa Engrácia”, do penúltimo registo de longa duração Sirumba (2016), incita a erguer os braços e agitá-los de lá do alto para baixo enquanto se grita de forma interrogativa a parcela do refrão: “ É presa ou predador? É presa ou predador?” e há um grupo de fãs da banda que lá à frente se evidencia, pois os seus elementos parecem ter tudo isso ensaiado.

Até Newton teima em aparecer no concerto. “Gravidade” é o tema que se segue, mas há gente disposta a contrariar a teoria, que não quer ficar presa ao chão e por isso salta a toda a força, ensaia-se até algum mosh mais junto ao palco. Em “Se Me Agiganto”, tema em que acabam a sair do palco, testemunhamos o quanto os músicos parecem estar concentrados apenas na sua dimensão espiritual-instrumental para pouco depois as anatomias explodirem em erupções inquietas e dispares em pleno palco.

Claro que ninguém acreditou que uma hora de espectáculo seria o tempo adequado para uma comemoração condigna do lançamento ao vivo de Linda Martini. O encore não tardou a ser reclamado e também cumprido: foi portador de “As Putas Dançam Slows”, que entra de mansinho, desde aquele verso inicial “Enquanto dança um slow, ninguém a vê cantar. Trava por dentro o tempo, antes de se ir deitar…” e prossegue até à fase instrumentalmente de toada mais abrasiva. Os músicos são banhados por feixes de luz branca que convergem em cone para cada um deles.

créditos: Diogo Baptista

E o canto quase sussurrado na génese de “Amor Combate” é secundado pela audiência, o palco enche-se novamente de um vermelho intenso (não se preocupem que também já foi azul), a ambiência está ao rubro, o palco não menos, os músicos entram numa tónica (quase diríamos na sónica) tonitruante e amotinada nos gestos.

“Putos Bons”, álbum Sirumba/2016 é a seguinte e o júbilo da assistência constituiu o melhor dos acolhimentos. E tudo acaba num mergulho sobre a população, que o mesmo é dizer Hélio Morais é o primeiro a avançar no stage diving, Pedro Geraldes é o segundo e vai até meio daquela piscina cheia de ondas de gente, pede para regressar à prancha, melhor, ao palco, Cláudia Guerreiro e André Henriques também não declinam o desafio. E, se tal como diz a letra de “Cem Metros Sereia”, tema com que este ritual melódico acaba “Foder é perto de te amar, se eu não ficar perto”, isto não andou longe de um orgasmo musical.

créditos: Diogo Baptista

PS – Vimos um bolo de aniversário em formato de tambor, é fácil adivinhar que seria para Hélio Morais, o baterista a quem todos fizeram questão de cantar os parabéns durante o espectáculo.

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