créditos: Jorge Gomes
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A uns escassos 15 minutos da 10h00 da noite, a hora marcada para o início da enésima apresentação dos James em Portugal – é sempre como se fosse primeira, a banda originária de Manchester nunca descura a entrega, devoção e profissionalismo a quem a escuta em território lusitano – o magnífico, ainda que não muito extenso, espaço do Parque da Pasteleira está bastante composto e irá inclusivamente ficar repleto de gente um pouco mais tarde. Isto sem que ninguém tenha tido de conjugar o verbo acotovelar no presente do indicativo. A noite está mais do que amena na Cidade Invicta e a promessa subjacente é a de um verdadeiro serão de estio musical, mesmo que rodeados por vegetação abundante e a uma distância escassa do Rio Douro. Enquanto isso, a lua espreguiça-se sobre o palco, também ela expectante.

Há gente de faixas etárias múltiplas, sendo que no seio do público prevalecem os portadores das 40 primaveras em diante: afinal já lá vão 27 anos desde o primeiro concerto dos liderados por Tim Booth em Portugal e estão muito próximos de atingir as 40 actuações ao vivo em solo nacional, um feito que não é para todos, como sabemos. O espectáculo da digressão Living in Extraordinary Times está prestes a começar.

James em noite de esti(l)o na Pasteleira – 150 minutos de música para 6 mil sortudos… | A uns escassos 15 minutos da 10h00 da noite, a hora marcada para o início da enésima apresentação dos James em Portugal – é sempre como se fosse primeira, Global News Portugal
créditos: Jorge Gomes

As colunas vão debitando música para animar a espera das hostes, ouvem-se entre outras coisas Ghostpoet e Jefferson Airplane em versão mix. Às 22h30 as luzes apagam-se, a música desliga-se e ouve-se um anúncio bizarro em português arranhado. “…Esta noite, este parque é nosso! Vamos foder o resto…”, assim mesmo, e sem paliativos e com o enigma da última expressão por desvendar, o concerto arranca com esta manifestação de intenções de Saul Davies.

Um belo conjunto de luzes ornamenta o palco enquanto “Oh My Heart” irrompe pioneira a abrir o alinhamento. Tim Booth apresenta-se elegante: com um casaco azul entrecortado por umas suaves linhas brancas e umas calças de ganga à antiga, em forma de boca-de-sino. A calibração sonora insinua-se ainda imperfeita, um pouco suja nos momentos iniciais. Algo que paulatinamente foi sendo corrigido ao longo do espectáculo, de qualquer modo e mesmo sem grande afectação para a miríade, a verdade é que a robustez do som instrumental talvez fosse demasiado vigorosa para o vocalista fazer ouvir a sua voz, no final notou-se o esforço dessa superação no canto de Tim Booth, sobretudo a falar.

James em noite de esti(l)o na Pasteleira – 150 minutos de música para 6 mil sortudos… | A uns escassos 15 minutos da 10h00 da noite, a hora marcada para o início da enésima apresentação dos James em Portugal – é sempre como se fosse primeira, Global News Portugal
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“To My Surprize” confere aos espectadores a visão cromática de uma dose intensa de luzes amarelas e vermelhas.

O espectáculo prossegue com um dos temas clássicos “Sit Down”, logo à terceira música, para gáudio dos presentes. Os braços agitam-se para a esquerda e para direita em ritmo frenético. E sem deixar a bola cair, como se diz na gíria futebolística, entra “Tomorrow”, com Tim e Saul a olharem-se cara a cara, um frente a frente de voz e guitarra e a descarga de luzes e o instrumental a incendiarem a multidão que ora vibra, ora fixa o momento no telemóvel. “Walk Like You” entra para criar um instante de maior contenção e é anunciada como uma canção que fala sobre “como não seguir a pegada dos outros”, numa alusão ao ser único que existe em cada um de nós. “Picture of this Place” avança logo a seguir, Tim já se despojou do casaco e fica apenas com uma longa camisa branca vestida. Andy calcorreia o palco e deixa lastro com o som do trompete. O público delira.

“Play Dead” é uma oferenda incomum na cartilha, muitos sabem de cor a letra do tema. Andy dá uma ajuda nos vocais. O momento é de grande intensidade: o instrumental e as vozes estão no zénite matrimonial.

Jim Glennie, o mais antiguinho, vai apresentando umas linhas de baixo, Mark Hunter está sereno e discreto nos teclados, Adrian Oxaal é o virtuoso da guitarra que a espaços dá uma perninha, perdão, uma mãozinha no violoncelo e tem uns solos à espreita. David Baynton-Power está na sua, distinto e engravatado, sempre nos exercícios circulares com as baquetas, Andy Diagram está sempre lá: com aquele trompete cuja sonoridade se espreguiça para além da melodia e Chloë Alper, a multi-instrumentista, garante a força ao diapasão nas percussões. E claro, Saul Davies já esteve na guitarra e no violino e está de regresso à guitarra.

E a celebração musical continua em boa toada com “Interrogation”, mesmo se a espaços e numa falsa partida Tim se esqueça da letra. Saul é o mais tripeiro e vocifera em toada brincalhona e vernacular: “Anda lá, caralho, canta!” e completa o juízo pouco ortodoxo, para risada geral, “Não há aqui ninguém que pode cantar esta merda?”, atira em direcção ao público com um português absolutamente perceptível  (viveu por cá alguns anos), com um ou outro lapso na conformidade sujeito-predicado.

James em noite de esti(l)o na Pasteleira – 150 minutos de música para 6 mil sortudos… | A uns escassos 15 minutos da 10h00 da noite, a hora marcada para o início da enésima apresentação dos James em Portugal – é sempre como se fosse primeira, Global News Portugal
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“Just Like Fred Astaire” parece sugerir uma toada harmónica de galope moderado. “She’s a Star” entra em registo um pouco mais acústico do que é habitual. Tim, o animal de palco, avança multidão adentro, melhor, acima, com uma acção de crowd surfing para qual adverte: “If you come and play, put the cameras away!”, uma espécie de manifesto contra a utilização submissa do telemóvel nos espectáculos e, neste contexto, para que as pessoas por onde ele irá passar tenham o kit mãos livres para o segurarem lá bem no alto.

E eis que votam “PS” como a eleita para o momento que se segue: é mais para desfrutar, abanando simplesmente a cabeça, o solo na guitarra de Adrian e o violino de Saul sobressaem. Ainda ninguém quer ir para casa, mas a que se segue é cantada em uníssono, pelo menos no refrão, trata-se naturalmente de “I Wanna Go Home”. “Nothing but Love” corre animada, com aquele trinar de ukelele inicial, e uma imensidão de luzes a piscarem e os braços da multidão a desenharem o movimento de um limpa pára-brisas.

“Say Something” é uma combustão entre o palco e o público, uma interacção perfeita dos vectores, com direito a novo mergulho e banho de multidão. E depois do júbilo, vem “Leviathan”, tema ao qual se soma logo em seguida um outro clássico de estirpe: “Waltzing Along”. E o apogeu dá-se em “Many Faces” com o convite formulado pelo líder a uma invasão pacífica de campo, perdão, de palco. Mais de meia centena de pessoas em palco a cantar com os músicos, os James acabam a ganhar dois coros: Tim adverte que o estrado pode colapsar a qualquer instante e ordena que ‘os invasores’ se sentem. A comunhão é total num tema precedido por um alerta de Tim: “A raça humana é única, não vamos dividi-la (numa referência explícita ao Brexit)”. Depois da desmobilização, ouve-se e canta-se “Getting Away”: música em que Tim Booth ensaia mais uma vez aquela forma de dança (e quiçá interioriza) em que desfere aqueles movimentos tão típicos em torno do eixo do corpo. É o delírio total. O encore traz “Sttuter”, “Sound” do longínquo ano de 1984, e ainda “Sometimes” para contentamento geral. A epifania acaba em júbilo com “Come Home” cantado pelas 6.000 almas presentes, praticamente duas horas e meia depois. Convém dizer que mesmo com alterações de elementos e o período de inactividade entre 2001 e 2007, os James já cá andam há 38 anos, é obra!

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