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Com uma abordagem Intitulada muito a preceito como “Reflexos D’Água”, o penúltimo concerto da edição 2019 do Festival In Spiritum decorreu no passado domingo, dia 19 de Maio, no magnífico edifício do Terminal de Cruzeiros de Leixões, em Matosinhos. A obra projectada pelo arquitecto Pedro Silva, inaugurada a 23 de Julho de 2015, acolheu o concerto da harpista Carolina Coimbra. Um momento, diga-se em abono da verdade e sem concessões enfáticas, absolutamente inolvidável para os fiéis melómanos. Pura poesia musical a brotar da ‘fusão’ da harpista com o instrumento num local que se revelou ser o mais indicado para (a) memória futura.

Passam escassos instantes do meio-dia, hora marcada para o início do concerto, e a sala do 3º piso está muito composta e promete andar muito perto de encher. Estamos num espaço que é uma autêntica varanda debruçada sobre o mar, de onde se divisa o horizonte bem distante lá no fim da linha do Oceano. Um imenso pé-direito envidraçado, de onde se vêem nuvens altas e gaivotas que se cruzam num esvoaçar explícito diante dos nossos olhos. E barcos, muitos barquinhos em bailio.

Dada a localização, o maestro Cesário Costa, director artístico do festival, pede com gentileza aos presentes que aguardem um pouco mais por alguns retardatários e garante que não tardará muito até que a récita comece. Todos parecem compreender a razão da espera. Cinco minutos depois surge na sala Carolina Coimbra, a harpista passeia elegância com um vestido azul trajado. Apresenta as duas primeiras peças Deux Improptus pour Harpe, de Jean Cras (1879 -1932) e Le Jardin Mouillé, obra tributária de Jacques de La Presle (1888 – 1969).

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As mãos delicadas de Carolina vão percorrendo as cordas numa melodia que é feita de uma serena mansidão, a água flui também através das cordas. A espaços há um entrelaçado, uma filigrana sonora. E também nós parecemos embarcar na música como se tivéssemos embarcado num mar calmo. No ‘jardim molhado’ a que alude a segunda composição, há toda uma fantasia melódica preenchida de dinamismo: momentos em que arranham as cordas e momentos em que se afagam as cordas, quais fios de pura seda. Seguem-se aplausos, muitos aplausos.

Ao terceiro tema, a harpista multipremiada, natural de Vila Nova de Gaia, seduz os circunstantes com novo desempenho, logo após uma renovada apresentação sumária de mais dois temas musicais: La Cathédrale Engloutie (1862 – 1918), uma peça original para piano convertida para harpa por Carolina, bem como La Source OP.23 de Albert Zabel (1834-1910). Há gente que fecha os olhos para uma melhor viagem sensorial.

A primeira das composições revela, sob uma forma quase lendária, uma catedral submersa que quando a água está límpida, se mostra, dá a ideia de emergir e nesse preciso momento ouve-se o órgão da mesma. Pouco depois volta a afundar, mas o som do órgão subsiste. É talvez, por assim dizer, mais linear, com menos variações, mas ganha fôlego no final.

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Quando a artista tange a harpa em “La Source” há um momento pleno de magia: um bailado encantatório de barquinhos que acompanham a melodia e ora vão enfileirados, ora dançam em círculos. Há um barco de maior porte que entra no porto e as pequenas embarcações perseguem-no como patos precoces atrás da mãe. A fonte é imaginação tocada, o descrito é real metaforizado. Nova pausa e nova apresentação. Seguem-se Vers La Source Dans Le Bois cuja autoria pertence a Marcel Tournier (1879 – 1951) e Die Moldau, de Bedřich Smetana (1824-1884), com o qual acaba o concerto. Em direcção à nascente no bosque mágico fez-se Carolina Coimbra com a harpa e viajamos com ela por esse habitat de figuras feéricas onde a água percorre a floresta. E é com Die Moldau que tudo finda na medida certa, com um veludo requintado e alguns rendilhados melódicos. Carolina e o instrumento aparentam ser uma daquelas lembranças mágicas de outros tempos: uma caixinha de música, mas desta feita a bailarina está sentada e abraça uma harpa. Passam 15 minutos da uma da tarde e voltamos ‘à Terra’, mas o tempo que passamos na água foi deveras saboroso. A memória plantou-o lá em casa.

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