- publicidade -

É numa sala praticamente sem fumo que os franceses Dead Sea entram, cerca das 20h20, para darem conta do seu papel de lebres nesta prova em que, como é sabido, a corrida de fundo será ganha pelos Slowdive. Conquanto que a banda ainda muito genuína, sem tomada de pose, e portanto espontânea no desempenho, se vai revelando possuidora de uma sonoridade muito agradável ao ouvido, algo entre uns Cocteau Twins e uns New Order. “Lotion”, por exemplo, ficou na memória, bem como “8.50”.

Dead Sea

O registo turbo chill wave, que eles defendem ser o estilo que praticam em palco, encaixaria com perfeição em Paredes de Coura ou no NOS Primavera Sound. Os cabelos compridos e esvoaçantes da vocalista também ficaram nas sinapses, num momento Kodak… para mais tarde recordar. Em resumo: uma meia hora de boas práticas musicais, com uma base de electrónica bem esgalhada.

Dead Sea

A verdade é que o hiato de tempo até ao recomeço das hostilidades em palco, desta feita com os ilustres representantes do shoegaze, foi exactamente o mesmo que o da prestação dos parisienses no estrado. Assim, passados 30 minutos, os Slowdive surgem em palco e o alinhamento abre com “Slomo”, do derradeiro álbum homónimo da banda, Slowdive (2017).

Aos primeiros acordes, verifica-se, pelo menos para quem não está em frente às colunas, que o som sai bastante menos sujo do que é habitual na génese destas epifanias musicais. Os teclados ostentam, muito naturalmente, o imperativo flamingo rosa, que já é um fetiche de Rachel Goswell, as guitarras viajantes de Neil Halstead e Christian Savill cujos efeitos sonoros ‘pedalizados’ são por demais conhecidos, a batida forte da bateria a cargo de Simon Scott, e o baixo com personalidade de Nick Chaplin compõem o ramalhete. As vozes suaves de Rachel e Neil fazem o primeiro embalo da noite.

Slowdive

“Slowdive”, do EP de 1990, dos primórdios da banda formada em Reading, plana logo a seguir, com as projecções a marcarem os observadores, Rachel agita-se com a pandeireta nas mãos, o calor intensifica-se na sala, apanágio do espaço e um problema ainda não resolvido desde as origens. A verdade é que a sala está praticamente cheia, mesmo quando o preço dos bilhetes não se cifra numa quantia propriamente dócil (30 euros): estão por isso presentes aqueles que realmente gostam, os seguidores e apaniguados dos britânicos.

Slowdive

Ao terceiro tema regressa-se às origens, com a emblemática “Crazy For You”, do primeiro registo de estúdio Just For a day (1991), um tema embelezado pela generosidade gráfica que se estampa no ecrã das projecções, na zona ulterior do palco. Destaca-se a profundidade das guitarras, a bateria marcante e a ordem de despejo de um banho de luz, que inunda os músicos e deixa o público imerso nos feixes luminosos.

Slowdive

E é ‘aos cubos’ que se faz o quarto tema, “Star Roving”, também do derradeiro Slowdive. A cadência rítmica sai acelerada e a viagem melódica prossegue para quem tirou bilhete, com uma aliança de vozes afinadas. As cabeças que se agitam no público são a melhor sinalética de aprovação. “Avalyn” entra a seguir, com harmonia sonora, aquela linha de baixo insinuante de Nick Chaplin a marcar o diapasão, embarcamos num ambiente quase imersivo, com o afago vocal de Rachel também a sobressair e claro as guitarras, sempre as guitarras de Christian e Neil, a conduzirem a nave musical da qual somos passageiros, tal como eles.

Slowdive

Regressamos logo em seguida a Just For a Day para o momento de elevação que “Catch The Breeze” sempre constitui, com aquela escalada nas guitarras a fazer mossa e os círculos concêntricos que se exibem através de imagens a criarem ilusões de óptica através do cenário visual. Nesta altura já Rachel dá uma ajuda nas cordas e Scott vai batendo, sem piedade, nos pratos e na tarola. “No Longer Making Time” (Slowdive, 2017) é portadora, uma vez mais, de uma exibição inicial portentosa de Chaplin e prossegue em dedilhar penetrante do baixista até ao fim, com maior descrição das guitarras que a meio do tema ganham também lastro sonoro e as vozes de Rachel e Neil afirmam-se sempre em parceria.

“Souvlaki Space Station” (Souvlaki, 1993) sai naquela entoação das cordas eléctricas inicial e vai-se propagando pelo espaço, tem inclusive direito a palmas do público sincronizadas com o ritmo da música. “Blue Skied and Clear” (Pygmalion, 1995) é outro exercício de elegância que se espalha como um perfume. Volvidos nove temas desde o princípio do espectáculo, eis que se descortina o clássico “When The Sun Hits”: e aqui chegados, as guitarras desenfreadas parecem soltar-se das rédeas dos tocadores, as vozes estão lá impressivas quanto baste, a bateria bem percutida soa muito marcante e o baixo nem precisa de se esforçar para acompanhar a preceito: Nick está de costas para o público, virado para Scott, em observância rítmica.

E de um palco com alguma soturnidade azulada, passamos para a toada das fitas cromáticas que dançam no ecrã em “Alison”, num regresso à atmosfera de Souvlaki, de 2013, que antecede a muito celebrada “Sugar For The Pill” (Slowdive, 2017) – e sem razão aparente lembramo-nos da canção “Toma o Comprimido”, de António Variações – o público agita-se efusivo e eis-nos perante mais um tema em que a destrinça instrumental se faz sem qualquer sacrifício, tudo aqui é harmonioso no resultado sonoro colectivo, mas os contributos individuais são identificáveis ‘a ouvido nu’.

Slowdive

A celebração está quase no rodapé e claro que a eleita para o abandono do palco só pode ser “Golden Hair”, o tal tema que evoca Syd Barrett, o lendário músico fundador dos Pink Floyd e activista frutuoso do psicadelismo. A figura de Barrett surge com recurso a um retrato a preto e branco no ecrã. Aquele intróito entoado por Rachel soa encantador e embala os presentes para a cavalgada de guitarras, com a marcação cerrada da bateria de Scott e do baixo de Nick a a estabelecer, como lhe incumbe, a ligação entre a harmonia e a melodia. E sim, Neil e Christian fazem por cobrar algum freio às guitarras em frémito, o ambiente está em brasa e o palco mergulhado num tom vermelho alaranjado.

Slowdive

O regresso para o reivindicado encore dá-se quando faltam 20 minutos para as 11 horas da noite, com “Don’t Know Why” (Slowdive, 2017), numa altura em que o tom predominante no palco passa a ser um azulado em transição para o violeta. “Dagger” (Slouvaki) é o tema que se segue, e é melodia pura no canto dos vocalistas. Faz-se silêncio para ouvir as palavras que lhes saem dos lábios. E “40 Days”, também de Souvlaki, num recuo de 25 anos após a edição do álbum, encerra a prestação da banda neste regresso ao Porto e volvido que está um dia após o concerto em Lisboa. Os de Reading passearam classe, muita classe, neste retorno. Desconhecemos se existia algum Felix no seio do público, mas a tempestade que lhe deu o nome também esteve no interior do Hard Club: foi positiva e devastadora no que toca aos danos musicais.

Fotos gentilmente cedidas por Mário Sá.

Slowdive

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.