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Antes de avançarmos para o concerto da banda escocesa no Hard Club, concedido na passada quarta-feira, importa dizer-se que Primal Scream, até porque ninguém fala disto, significa Grito Primal e deriva de uma tese defendida por Arthur Janov (Los Angeles 21 de Agosto de 1924 – 1 de Outubro de 2017). Este psicólogo e psicoterapeuta norte-americano, cuja extensão de vida foi provecta, é tributário do conceito de terapia primal, um método através do qual o paciente é estimulado a reviver e a expressar os seus sentimentos mais básicos, que na essência o terapeuta ajuíza poderem ter sido reprimidos.

Serve tudo isto para dizer que o concerto dos Primal Scream constituiu um óptimo tratamento psicoterapêutico por via da musicoterapia, afinal ninguém reprimiu os sentimentos mais básicos, antes pelo contrário, nesta acepção Primal Scream teve por sinónimo a palavra catarse. Agora, para viajarmos ligeiramente no tempo, passamos a conjugar no presente o passado recente…

Primal Scream no Hard Club. créditos: Diogo Baptista/GN

Quarta-feira, 21h30, o Hard Club alberga uma centena de curiosos e interessados no concerto de abertura dos escoceses. De repente, vemos quatro vultos a preencherem a escuridão que se apoderou do palco, entram de mansinho, mas qual não é nosso espanto e sai um autêntico disparo sonoro. São os Fugly, rapazes do Porto que vêm dispostos a partir a louça toda!

Durante uns bons 40 a 45 minutos a descarga eléctrica dos autores de “Millennial Shit” faz-se sentir, para agrado de um contingente pouco numeroso mas fiel: este ‘ajuntamento disperso’ ficou agradavelmente surpreendido com a energia despendida em palco pelos quatro elementos da banda, a fúria incontida de Ricardo Brito na bateria fica para memória futura, só não sabemos se no final aconselhar uma TAC à quadrilha seria algo abusivo para lhes sugerir. Uma bela prestação que revela uma banda a ter em conta.

Primal Scream no Hard Club. créditos: Diogo Baptista/GN

A entrada dos Primal Scream faz-se ao som de “Don´t Fight It, Feel It”, do honorável Screamadelica (1991), o álbum que os catapultou para todo o sempre no universo musical. Bobby Gillespie é um estiloso nato, naquele seu ar tropegamente elegante a usar um fato cor-de-rosa, ligeiramente purpúreo. Andrew Innes, o guitarrista virtuoso e portador de um belo chapéu, posiciona-se à esquerda dos observadores-apreciadores e por conseguinte à direita do palco, o baixo fica muito bem entregue a Simone-Marie Butler, Darrin Mooney está todo penteadinho por detrás da sua bateria de cor azul-bebé brilhante. Martin Duffy fica reduzido à condição de um boné erguido: não se vê durante grande parte do espectáculo, pois está oculto por algumas colunas e pela barra dos teclados, mas sente-se a sonoridade que desencadeia o tempo todo.

O público foi acorrendo à Sala 1 e, quando a epifania com os Primal Scream tem o seu início, o espaço está quase repleto na totalidade: a sala permanece a uma nesga de estar cheia. “Swastica Eyes” primeiro e logo após “Miss Lucifer” dão o mote para a dança, o ambiente na audiência é de ‘agitação cabeçuda’. As anatomias vão-se insinuando perante a estimulante convocatória dos temas musicais. Bobby Gillespie vai para a boca do palco e interage dançante com a miríade que está à sua frente, de vez em quando emite aqueles seus gritinhos disfarçados de falsetes e desloca o microfone de forma característica e enfática para a frente e para trás em movimentos ágeis e rápidos enquanto canta. “Beautiful Future” leva-nos até 2008, data do lançamento de Riot City Blues, também ela passível de um ‘abananço significativo do esqueleto’. Andrew extrai sons surpreendentes da guitarra, aqui e ali faz uma extensão através de um solo e não raras vezes estica a perna por sobre a coluna de munição, como se assim tocasse melhor.

Primal Scream no Hard Club. créditos: Diogo Baptista/GN

Um alinhamento capaz de surpreender os mais incautos, que contudo quando se fala da banda de Gillespie até acaba por não constituir motivo de admiração. Certo é que a audiência aprova o desfile de músicas. As luzes de cor violeta e os strobs pujantes remetem-nos para uma discoteca. Darrin Mooney continua certeiro na bateria, Simone vai-se insinuando com glamour no estrado e do baixo saem linhas perfumadas. Andrew continua a domar as cordas em sucessivas erupções. “Kovalski” faz-nos recuar um bom par de anos atrás, a 1997, ao registo Vanishing Point. A toada, essa é a mesma. E até temos direito a maracas, que o líder agita para provocar aquele som tão típico.

Quando “Kill All Hippies”(‘XTRMNTR’, 2000) ecoa, o vocalista despoja-se do casaco. O Índice térmico caminha para o rubro. O calor abunda. Andrew está a ‘riffar’ (neologismo musical feito verbo). O líder parece petrificado por vezes, mas num dado momento faz questão de dizer que está vivo e vem cá à frente onde os fiéis melómanos mais parecem apreciá-lo, ele também os convoca à proximidade: a espaços flete os dedos das duas mãos em jeito de convite.

E do álbum homónimo e quase seminal da banda, falamos de Primal Scream de 1989, apresenta-se em seguida “I’m Losing More Than I´ll Ever Have”, o primeiro tema da esfera sonora ‘stoniana’ que marca o diapasão da banda. Há palmas compassadas a mostrar a recepção calorosa a uma nova tipologia rítmica. A guitarra de Andrew está em completa ebulição. “Higher Than the Sun”, do mesmo álbum, segue um curso calmo, para amenizar um pouco os ânimos que certamente vão crescer de novo não tarda nada. Eis que surge “Velocity Girl”, uma música retirada do baú, de 1986 (Crystal Crescent) e “Dolls” (Riot City Blues, 2006), que soa, e de que maneira, a essa linha de influência dos Stones e claro acentua o frenesim. Segue-se “Burning Wheel”, que também ajuda à festa instalada.

Primal Scream no Hard Club. créditos: Diogo Baptista/GN

Já andamos pelo punk, techno-disco, ritmos space, brit e hard rock, pelos blues e nunca se sabe por onde isto irá parar. Em “100% or Nothing”, do mais recente Chaosmosis, de 2016, Gillespie continua com o cabelo em desalinho e segura o microfone com o fio enrolado na mão esquerda, de vez em quando faz questão de o estender para que o coro da audiência se faça ouvir. “Loaded”, Screamadelica/1991 é assaz dançante e abre alas, ou asas, para que “Movin on’ Up” alcance o esplendor, com o público a investir-se das funções de um coro de gospel e completamente rendido à prestação dos escoceses, toda a gente está de braços em direcção ao céu. Adivinha-se o final, que acontece por volta das 23h46 com “Country Girl”.

Primal Scream no Hard Club. créditos: Diogo Baptista/GN

Um reclamado encore é portador de “Come Together”, também de Screamadelica, tema cantado e celebrado em uníssono a fazer jus ao título da música homónima da dos Beatles. “Jailbirds” e “Rocks” dão o tom a um fim de festa absolutamente frenético, após uma hora e meia de música. Gillespie, que já esteve algo imóvel e circunspecto no palco e até pediu desculpa por isso no primeiro terço do espectáculo, continuou em muito grande plano a partir daí. Andrew foi demolidor na guitarra e Darrin muito competente na bateria, Simone é bem mais do que uma vaporosa fonte de charme e o baixo que o diga, a Martin Duffy não o vimos, mas ele esteve bem presente.

Primal Scream no Hard Club. créditos: Diogo Baptista/GN

Primal Scream é também sinónimo de regresso. Existem desde 1982 e a primeira vez que os (ou)vimos foi num espectáculo partilhado com os Bolshoi: a 30 de Setembro de 1988, em Paço D’Arcos, portanto, há mais de 30 anos. Há bandas eternas…

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