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É possível encher mais de meia sala do Coliseu do Porto para um espectáculo de dança? A resposta é um taxativo e maiúsculo: “- É!” O desafio de deixar apenas a galeria e a geral da velhinha e emblemática sala da Rua Passos Manuel, o maior dos Coliseus do país em termos de lotação, com umas cerca de 1500 almas, talvez um pouco mais, a verem Autodance + Skid, pela mão da prestigiada estrutura sueca, a Göteborgsoperans Danskompani, consagra uma boa aposta desta edição do Festival DDD (+ FITEI).

A miríade de espectadores presente no passado sábado, dia 4 de Maio, estava expectante para um espectáculo em duas etapas (num binómio coreográfico que inverteu a ordem de apresentação das peças). Em primeiro lugar, surgiu aos olhos da audiência um autêntico ‘prémio da montanha’ pedestre, pleno de destreza, vigor físico e movimento: Skid. Neste espectáculo, cuja criação é tributária do coreógrafo franco-belga Damien Jalet, há um permanente equilíbrio precário dos bailarinos-acrobatas que marca a toada ascendente e descendente dos mesmos na escalada e posterior queda numa superfície lisa e rectangular de cor branca que marca toda a cenografia. Com uma inclinação aproximada de 36 graus, o piso é em si mesmo uma espécie de lugar de batalha contínua entre quem tenta segurar-se e um solo em intenso plano de declive.

Skid, by Damien Jalet – Photo Mats Bäcker

Há solidários movimentos alinhados, ora transversais ou mais longitudinais em que os intérpretes se unem através de elos humanos para constituírem desenhos coreográficos com significado. E que, logo após, se vão desmanchando para uma nova ronda sucessiva de escaladas e quedas. Os intervenientes estão numa disputa constante com o pavimento para conseguirem estar agregados e passado algum tempo dispersam em rodopios mais ou menos serenos. Apostam em exercícios de sincronização e jogos de alternância de fileiras, fazem túneis por onde passam em deslize de atracção gravitacional e de igual modo criam quedas desencadeadas por efeito dominó.

Skid, by Damien Jalet – Photo Lennart Sjöberg

No despertar sensorial provocado por estes efeitos de ‘movimento perpétuo’ em equilíbrio instável, a memória, num plano mais abstracto, levou-nos até “Metropolis” de Fritz Lang e aquela ‘placenta final’, em que o ser (re)nasce, remete para Sísifo e para o peso do Mito que a condição humana sempre carrega.

Autodance, by Sharon Eyal – Photo Mats Bäcker

Por seu turno, e à posteriori de um intervalo alongado, é apresentado Autodance: um trabalho da responsabilidade da coreógrafa israelita Sharon Eyal, também para a Göteborgsoperans Danskompani.

Os bailarinos da companhia sediada em Gotemburgo surgem desta feita sem uma aparente definição de género: o repto para o observador passa quase por não discernir quais os homens e as mulheres, na aparência mas sobretudo no movimento, num vínculo de ilusão visual que se estabelece entre a plateia e o palco (naturalmente que o maior grau de proximidade com os bailarinos e/ou o palco desvirtua esse desígnio inicial). A aparente suavidade dos movimentos, numa expressão mais dançante que a da peça precedente, induz-nos a nós, espectadores, a uma não-destrinça. A disciplina dos corpos em marcha assume um rigor quase militar. Os corpos conjugam-se nessa matriz dançante, como se de um teclado anatómico de composição colectiva se tratasse. Centauros ou cavalos a trote estão de tal sorte alinhados que a soma com o magnífico desenho de luz nos faz parecer o típico fantasma das silhuetas e figuras que outrora víamos nas televisões mal sintonizadas. E os bailarinos passam, o que não é nada despiciendo, uns bons 95% do tempo em pontas.

Autodance, by Sharon Eyal – Photo Mats Bäcker

Como se tudo isto já não fosse o bastante, a meio da peça somos presenteados com um solo de anatomia enfática em que a flexibilidade orgânica é exposta através de movimentos e rotações cujo resultado impressiona. Uma palavra para as bandas-sonoras de ambos os trabalhos e para o reiterado apuro depositado no desenho de luz já referenciado para o segundo caso, mas que com justiça também em Skid merece todos os elogios, tal como os jogos de sombras que desse rigor técnico daí derivam para os dois artefactos coreográficos apresentados.

Autodance, by Sharon Eyal – Photo Mats Bäcker

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