créditos: Diogo Baptista / GN
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Para quem esteve na Sala 2 do Hard Club, na passada quinta-feira, talvez a prestação dos Ghostly Kisses tenha sido suficientemente eloquente para que não subsistam dúvidas quanto ao que possam vir a ser e a fazer num futuro próximo. A voz de Margaux Sauvé foi um outro foco no meio das luzes que quebraram o tom escuro do espaço. A soturnidade foi, no entanto, a atmosfera perfeita para desfrutar das sonoridades da banda canadiana.

A voz cristalina e encantatória de Margaux começou a passear-se algo etérea pelo espaço às 22h20 da noite. Luzes púrpura criam o ambiente propício e o canto irrompe no território, ainda com maior impacto ao vivo do que nos EP’s gravados pelo grupo. A vocalista ostenta uma blusa branca a contrastar com umas calças pretas. É de baixa estatura física e de elevada estatura musical, como nos foi dado a comprovar no final da jornada melódica.

créditos: Diogo Baptista/GN

“Spellbound” começa por cativar uma audiência numerosa que preencheu o espaço sem se acotovelar. E logo aí, na abertura das hostilidades, o charme musical emana. Adiciona-se-lhe o consistente e habilitado acompanhamento dos elementos da banda, com Louis Santais nas teclas, Antoine Moreau na guitarra e Alex Kirouac na bateria. Ao segundo tema, “Such Words”, a paleta cromática das luzes entra em registo de alternância entre a púrpura inicial e o verde, a incursão é muito melodiosa e a projecção de voz é marcadamente límpida. “Barcelona Boy” antecipa o próximo EP, que irá sair neste Inverno, o terceiro. Trata-se de um tema mais mexido e com copiosa intensidade na cadência.

O sincronismo instrumental é notório e se à frente alguém se queixa de um som com alguma reverberação, a meio essa ‘sensasom’ não existe de todo. Há até um sincronismo musical perceptível em “Stay”. A espaços Margaux amacia o violino com o arco, o som sai tão expressivo quanto aveludado. A dream pop ganha expressão maior com a magnífica “Garden”, onde tudo sobressai: desde a guitarra de Antoine à bateria de Alex, os nossos ouvidos e os olhos depositam a atenção de igual modo na planície suave dos teclados de Louis, enquanto isso a voz da líder propaga-se expressiva e segura de si.

Este primeiro concerto na Europa e em Portugal (anúncio que fez as delícias dos presentes) começava a ganhar lastro e reconhecimento por parte do público. Meia dúzia de temas percorridos com “Héloïse” e a atracção vai campeando, fruto da qualidade patenteada pela presença afirmativa dos músicos em palco. “Empty Note” é de uma beleza singular, vêem-se cabeças ondulantes em movimentos suaves que oscilam para os lados e a aprovação é generalizada.

créditos: Diogo Baptista/GN

“Where Do Lovers Go?” é uma interrogação feita canção que tem a sua génese na guitarra e a estética de palco com que se apresenta é irrepreensível: luzes em formato de uma estrela de xerife ao centro cuja combinação com o espectro da figura de Margaux e que a projectam em sombra vincada para desfrute do espectador. Há uns assomos dançáveis e a espaços desejávamos que a vocalista entrasse num registo trip hop. Podia ser algo entre uma Liz Fraser e uma Lisa Hannigan mais trovadora e quiçá, sem paliativos, uma Enya: no que de melhor a cantora irlandesa tem para oferecer, apesar do seu diapasão afinar pelo tom mais comercial. A verdade é que afinal se trata tão-somente, e não é assim tão pouco, de Margaux Sauvé.

Em “Call My Name” a cantora e violinista anuncia ao público “Quando escrevo letras não sei bem o que escrevo, deixo fluir o pensamento e a imaginação, é como se fosse uma espécie de terapia, são as minhas relações, emoções e histórias de vida que ficam nas músicas”, sustenta com discurso informal. Logo a seguir ouvimos-lhe dois violinos, o que está samplado e o que ela toca em sobreposição.

créditos: Diogo Baptista/GN

“Halo” é um dos momentos altos da noite, uma versão soberba do tema original de Beyoncé, com a líder da banda oriunda do Québec sozinha em palco a cantar e a apoderar-se dos teclados por entre uma névoa densa de luz cor-de-rosa e a projecção da sombra recortada. Um cenário único para desfrute dos felizardos presentes. De resto, os Ghostly Kisses provaram ser exímios na qualidade patenteada em versões, tendo tocado “Zombie”, o conhecido clássico dos Cranberries, e “Back to Black” de Amy Winehouse, com igual dignidade e classe, isto já no encore, no final da celebração colectiva, efusiva e empática diga-se de passagem. Antes disso houve tempo para três magníficas em sequência: “Roses”, “The City Holds My Heart”, que muito bem podia transformar-se em “This City…” e ser dedicada ao Porto enquanto cidade de acolhimento da estreia da banda em território europeu. E ainda “Touch”, antes do regresso ao palco. David Tremblay, o técnico, tentou esmerar-se e deu-nos o melhor som que os Ghostly Kisses produziram no Hard Club.

créditos: Diogo Baptista/GN

O balanço é mais um desafio vencido pela produtora Mr. November/Suspeitos, que têm trazido alguns projectos de música independente/alternativa, bandas e artistas mais ou menos emergentes ao Porto. Uma aposta certeira que faz antecipar outra grande prestação da banda canadiana no Super Bock em Stock, festival que se realiza em Lisboa em Novembro. O certificado de qualidade, esse foi passado com distinção na Invicta e logo em estreia europeia. Se a música tem asas, eles vão voar bem alto.

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