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“As Três Irmãs” de Tchékhov é uma das peças mais representadas pelo mundo inteiro, um texto que tem sido ao longo dos tempos alvo de múltiplas versões, partindo de uma só dramaturgia: a do génio russo.

Os espectadores do Porto tiveram a fortuna de poderem presenciar a versão cénico-dramatúrgica de um dos mais espectaculares encenadores de todo o sempre: naturalmente que falamos do lituano Eimuntas Nekrosius, recentemente falecido, que em Dezembro 1997 trouxe à invicta, no âmbito do Festival PONTI, uma luminosa prestação que jamais se apagou da memória de todos os que a viram no Teatro São João – TNSJ. A presente edição do FITEI foi portadora de uma nova visão apresentada no mesmo local, com excertos da peça, à qual assistimos por via da companhia Estúdio Lusco – Fusco, de São Paulo, Brasil.

A perspectiva inovadora que resulta de uma positiva amálgama de ficção, neurociência e memória deposita no espectador um propósito de ‘meditação’ sobre os temas versados ao longo do espectáculo. O próprio André Guerreiro Lopes, a quem incumbe a direcção, concepção e a adaptação da peça “Tchékhov é um Cogumelo”, parece entrar nesse domínio Zen logo no início da peça, pois permanece inerte e em posição de lótus durante boa parte do espectáculo. Tudo isto é simbólico e significativo: um momento descrito pela companhia como o tempo da mente.

créditos: André Guerreiro Lopes

Deste modo e classificado como indistinto, o movimento invisível do pensamento vai interferindo de um modo que faz com tenha responsabilidade directa na acção. Há eléctrodos que em tempo real captam ondas cerebrais – que se traduzem em pensamentos, emoções e/ou estados meditativos -, estas convertem-se em matéria teatral. Há impulsos eléctricos que accionam uma instalação sonora e visual, espelhando o que é invisível para a dimensão do visível. É isto que vemos na génese do espectáculo.

Uma outra instância de dimensão temporal é a do tempo-memória, aqui reflectida pelas imagens-vídeo da entrevista a Zé Celso, uma conversa que remonta a 1995, no Parque de Ibirapuera, em São Paulo. Uma perspectiva de dupla memória: a do recuo no tempo de quem entrevistou e também o das lembranças do entrevistado face a uma criação radical de “As Três Irmãs” levada à cena pelo Teatro Oficina em 1972, para a qual contribuiu uma trip de ácido de nome singular: Pérola Negra. Uma analepse teatral com imensa piada, este recuo no tempo da entrevista com Zé Celso, e que de resto faz todo sentido em termos estruturais para este trabalho.

créditos reservados

E no meio destes tempos há a demanda pela ilusão da linearidade dramatúrgica. É o denominado tempo das três irmãs, relatado como espaço mental que é simultaneamente refúgio e prisão: o sonho feito aspiração por um futuro radioso que não é mais do que um retorno ao passado impossível de resgatar. É a rejeição plena do presente pelas personagens enquanto vértice, enquanto trilogia marcante da narrativa dramatúrgica: três actrizes que convocam para o plano ficcional do palco, em diferentes cenas, Olga, Macha e Irina, que as mais das vezes nos surgem em quadros estéticos de uma beleza expressiva, com redundâncias de fala poéticas. Um triângulo geracional que se complementa pelas vivências contrastantes, uma verdadeira dimensão tridimensional que é uma espécie de soma das individualidades percepcionada pelo espectador. Este, no exercício de assimilação da peça tende a cruzar, a criar uma intersecção entre as cronologias biográficas de cada uma delas: três mulheres, uma mesma mulher, uma mulher-una num mundo transfigurado em mutações rápidas que é incompreensível para ela(s). Arriscaríamos a dizer que Nietzsche deve ter tido uma conversa extensa com Tchékhov, pois o Mito do Eterno Retorno paira por aqui. Na conversa pós-espectáculo, talvez tivesse dado jeito contar com António Damásio.

Uma palavra para os responsáveis por um desempenho a preceito, que é sinónimo da palavra elenco, onde figuram: Helena Ignez, Djin Sganzerla, Michele Matalon, Samuel Kavalerski, Fernando Rocha e Cleber D’Nuncio.

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