- publicidade -

“Preto” é, sem grandes favores, um dos momentos altos deste FITEI, cuja edição de 2019 nos surge pela primeira vez em agregação ao DDD – Festival Dias Da Dança. Quase toda a gente sabia, por antecipação, da qualidade do trabalho que o palco do TeCa – Teatro Carlos Alberto iria oferecer ao público durante dois dias, quinta e sexta (dias 16 e 17 de Maio). A peça tem a chancela da Companhia Brasileira de Teatro.

Desde logo o interesse residia na curiosidade de ver no estrado o desempenho de uma Grande Actriz (tributária dos caracteres em letra maiúscula), de nome Renata Sorrah, que os ecrãs lusos ajudaram a projectar desde há umas boas quatro décadas. Salvo uma ou outra referência mais ou menos episódica num jornal impresso e ou digital, a participação da artista e a sua presença passou incólume no meio de um elenco, sem tributo especial, mesmo sendo esta a primeira vez que vem a Portugal para fazer teatro. E, sem conjecturarmos muito, talvez seja mesmo essa a sua vontade. Certo, é que a Actriz parece vencer a barreira etária, pois não envelhece. Tudo nela continua a ser expressão dramática: da cabeça aos pés.

“A Pretura”, um conceito enunciado diversas vezes na narrativa da peça, que consagra para além do estatuto étnico, uma condição socioeconómica e cultural subjacente ao quotidiano de quem é negro no Brasil, é aqui explorada enquanto binómio nuclear: o da noção de inferioridade que esse conceito propõe versus a ideia de afirmação da negritude enquanto valor fundamental de um colectivo ‘supra-rácico’ na miríade populacional da ‘nação verde e amarela’. Com o impulso de um neocolonialismo de feição interna por parte de Bolsonaro contra indígenas, negros e população LGBT e/ou apoiantes do PT, “Preto” assume uma condição teatral que é uma espécie de porta-estandarte, um libelo que se opõe à tendência hermética dos tempos actuais.

A abordagem é quase pós-moderna. Personagens quase todas vestidas de preto, num palco cru, quase minimalista, aqui e ali preenchido com adereços cenográficos não muito elaborados e que dificilmente são usados em simultâneo, compostos por uma mesa, duas ou três cadeiras, alguns microfones (que só são numerosos numa das cenas finais), um ou outro projector de luz de estúdio e um músico (Felipe Storino) que executa a banda-sonora de forma presencial num dos cantos do palco, há um desfile de personagens que versam a diferença, questionam a diferença e preconizam o direito a ela, para se sentirem iguais.

Deste modo, a incidência dos vectores abordados, recai na condição da negritude que é na essência o fio linear que atravessa toda a dramaturgia, na homossexualidade feminina cujo diálogo verbal e o da inerente expressão anatómica entre Renata Sorrah e Grace Passô é delicioso, orgásmico e encerra uma condição libertadora das mulheres, bem como a da homossexualidade masculina, desta feita protagonizada por Rodrigo Bolzan e Felipe Soares, em que o amor é feito de dança, luta, apego e afectos, tudo isto feito quase sempre em movimento e com o brilho do suor dos corpos. Nadja Naira, por seu turno é conhecida pela ‘faz tudo’ e é um epíteto merecido: interpreta, ilumina e dança (e dirige noutras situações) e Cássia Damasceno impressiona, mesmo quando aguenta sem esgares de dor e durante algum tempo o peso de Felipe Soares ao colo ou quando promete cantar e exibe expressões múltiplas de quem o faz sem lhe escapar um monossílabo que seja. A cena dos microfones envolventes deixa-a na qualidade de uma ‘porta para a voz’ da negritude. Por Grace Passô passa o papel da inquiridora, da mediadora de diálogos que se molda numa espécie de conferencista visual (os recursos-vídeo estão bem presentes em palco). E a batuta de tudo está na mão de Márcio Abreu, a verdade é que há poucas notas soltas e, paradoxalmente, muito em aberto nesta peça teatral com alguma música à mistura, ou tudo isto não fosse… Brasil.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.