© Mila Petrilo
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Há trabalhos que nos marcam pela sua intensidade e também pelo grau de envolvimento, quase sem fronteiras, entre os intérpretes/bailarinos e os espectadores. “De Carne e Concreto – Uma Instalação Coreográfica” acaba de nos (sim, na 1ª pessoa do plural) tatuar na pele e na mente nesta sua primeira apresentação ao público do FITEI.

Luciana Lara (directora artística, responsável pela dramaturgia e conceito) é a mestre-de-cerimónias que espera pelas pessoas à entrada da sala-estúdio do Palácio do Bolhão e dá as instruções para que cada um dos espectadores-participantes fique encapuzado com um saco de cartão canelado colocado na cabeça (há buracos correspondentes aos olhos e ao nariz) antes de entrar. Entrados no espaço, os presentes aparentam pelo menos um ar ligeiro de alguém pertencente aos farricocos, mas o perfil não chega a parecer-se com algum elemento do Ku Klux Klan (felizmente!). 

Toda a gente se entreolha à distância e tudo radica num momento que é um misto de curiosidade, expectativa e muita timidez à mistura. A sala é escura, as paredes estão pintadas de preto. E há uns sacos do lixo, também eles pretos, para não variar, em dois lados opostos da sala. As luzes são brancas em contraste com tudo o resto, são potentes e geram imenso calor no espaço. Há pessoas de movimentos presos, algumas reféns de uma imobilidade que deriva do acanhamento e ainda outros que dão pequenos passeios. Permanecemos assim em silêncio testemunhal, uns bons 20 a 25 minutos, até que começa a dar para perceber pelos movimentos mais soltos e pelo território percorrido por alguns, quem na verdade está ali enquanto intérprete.

As roupas, a indumentária dos presentes é dos poucos elementos que conferem algum colorido ao espaço. A fase exploratória de conhecimento avança quando os intérpretes quebram a fase da timidez e se acercam dos presentes, olhando-os primeiro e, depois, através da junção da sua mão com esse alguém eleito, os levam a percorrer um percurso aleatório pela sala. Antes disso há gente que já esteve em modo ‘Giroflé/Jardim da Celeste’: em grupo circular, com avanços e recuos, de mão dada, mas ainda com o saco na cabeça. O fenómeno intensifica-se em parelhas que jogam ao sério entre si e acabam a retirar o saco de cartão canelado uns aos outros, conseguindo conhecer o rosto do outro.

A um dado momento, assumido que está o bando de intérpretes que se distingue pelos movimentos de rotação, de torção do corpo e dos eixos desferidos no estrado, o resto do contingente já alargou o perímetro para as asas de um palco que é uma sala integral. Os inocentes sacos de lixo, que até à data tinham sido apenas um adereço cenográfico, são de imediato despojados do seu conteúdo: papeis, embalagens de cartão e plástico em quantidades industriais.

O momento que se segue é demorado: um bailado desconfigurado de buscadores de entulho. Eles e elas estão ávidos, famintos de somar despojos ao corpo. A imagem da estética da incorporação do lixo no corpo redunda num desfile grotesco, preenchido por figuras toscas que cambaleiam trôpegas de excesso. Temos uma imagem que corresponde a uma espécie de Boneco da Michelin somado ao Action Man e a um jogador de basebol: uma metáfora à sociedade de consumo massificada. Já nada mais cabe nas calças, nas camisas, nas cuecas e no entanto pedem auxílio aos que presenciam para meter mais uma vasilha, um pedaço de cartão, uma embalagem através de uma manga ou de um bolso. E passado algum tempo, agora que estão com as armaduras de cavaleiros da urbanidade, digladiam-se em choques uns contra os outros com vigor e pouca destreza (e até a nós parece que a coisa dói). E no meio de tudo isto há quem, entre os espectadores, se invista de algum activismo na recolha do lixo em sacos, que de nada adianta como se vai ver adiante.

Alguém alvitra de forma premonitória que hão-de ficar nus no epílogo desta batalha. É o que acontece como resultado de uma luta feroz e desenfreada entre todos: são agarrões, sobreposições corporais, luta greco-romana sem regras, e finalmente lá se vão escapando paulatinamente, a conta-gotas, do amontoado guerreiro e vão-se instalar junto a uma das paredes mais resguardadas para recuperarem o fôlego. Os corpos estão cobertos de suor e os portadores dos mesmos arfam que se fartam, resultado do esforço despendido.

Luciana Lara

Regressam após uma pausa em passo lento, de mãos dadas, e com recurso a um círculo imperfeito até ao ‘centro das operações’. É assim que irrompem passo-ante-passo pela sala dentro, de novo. Lutam mais um pouco por um pedaço de lixo, acumulando porções que colam numa carga substantiva junto ao abdómen. E entram num exercício em que se soerguem à vez junto a uma das paredes: um quadro com um nu colectivo. Nos vários momentos da peça coreográfica consagra-se um nu artístico, que já foi também um nu selvagem e de forma intrínseca ao ser, se revela enquanto um nu espiritual, sem nunca deixar de possuir cada uma destas três dimensões.

Acabam todos cobertos de imundície (julgávamos nós que a peça tinha findado) e emergem dela um pouco depois, convocando alguns dos presentes a um auxílio em pares: a analisar as respirações, a zona da carótida e o pescoço, os joelhos, as costas e os maxilares quase num momento de rescaldo. E sim, após esse tempo, e quando os auxiliares terminam a sua tarefa, recolhem aos bastidores após quase três horas do começo.

Em resumo, um excelente jogo coreográfico, que dispensa categorias em termos de linguagens artísticas, porque, na essência, tem um pouco de tudo: performance, instalação, teatro, dança, som e artes visuais. É dessa riqueza transdisciplinar que a peça (con)vive. Uma gramática própria em termos estéticos cuja matriz de intervenção criativa passa pela relação corpo-cidade, a cidade corpórea, a in… corporação da cidade, o mapa anatómico da cidade (Brasília de onde vêm serve de modelo), toda uma teia que tem o espaço urbano como elemento nuclear. O lixo, por seu turno é uma ferramenta, um veículo e é também cenário, guarda-roupa e adereço.

E para a posteridade, aqui ficam os “Reis do Entulho”: Camilla Nyarady, Cristhian Cantarino, Déborah Alessandra, João Lima, luciana Matias, Márcia Regina, Robson Castro e Roberto Dagô.

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