Orfeu Mestiço – Uma Hip-Ópera Brasileira
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Orfeu Mestiço – Uma Hip-Ópera Brasileira

Tal qual encantamento digno de mitologia grega, a peça em palco no emblemático Mosteiro de S. Bento da Vitória catapultou a plateia para um turbilhão sensorial baseado na dor de Orfeu, que perdeu a sua amada durante a Ditadura Militar vivida no Brasil, no final da década de 60.

Agora, ano de 1997, é contactado para a exumação do corpo da sua companheira. 28 anos volvidos, Orfeu é obrigado a reviver o passado. E nós, fiéis assistentes, seguimos o seu pensamento com a ajuda da narradora que viaja no tempo e no espaço sem sequências cronológicas definidas. É uma narração alternada: ora momentos de declamação e reflexão, ora momentos de musicalidade com canções, gírias, raps ou rapsódias.

Diria que tudo foi ensaiado ao mais ínfimo pormenor, mas quem vê tanta fluência pode cair no erro de pensar que é fácil manter estes discursos, monólogos ou declamações.

Há uma parte que me deixa em dúvida, porém. Duas actrizes. Lado a lado. Sobressaem nas cortinas brancas, rendadas, que se erguem atrás. E falam. Dizem o mesmo. Pode parecer antitético, mas chamar-lhe-ia monólogo, pois não falam uma com a outra. Antes, completam-se. É rápido, emotivo, profundo…chega a ser doloroso. Sentimo-nos envolvidos neste ritmo frenético e sereno em simultâneo.  Cessou. Parece que ao terminarem o seu palavreado encantador nos libertaram do transe. Já podemos continuar.

E continuamos, seguindo os ponteiros do relógio que giram sem regras. Vemos tudo na sua essência, vemos Orfeu e Eurídice que se apaixonam. Vemo-la também desaparecer. Vemo-lo procurar pela sua amada anos e anos depois, tentando culpabilizar o Estado pelo seu desaparecimento.

Tudo isto aliado a efeitos visuais excelsos, com sombras e projecções sobrepostas. Era isto que faltava ao teatro: inovar. Que o confirme Joaquim Martins, espectador satisfeito. Foi espectacular, especialmente no aspecto cénico com a mudança e projecção de imagens, que foi a coisa que realmente mais me tocou. Havia a necessidade de ver aqui no país novas versões, novas encenações, novas cenografias, porque estamos um bocado pequenos em imaginação ao construir um espectáculo. 

Os louros, esses, vão todos para o Núcleo de Bartolomeu Depoimentos, cujos os esforços permitiram, entre muitas outras distinções, angariarem o Prémio Shell de melhor actriz para  Roberta Estrela D’Alva e o Prémio Cooperativa Paulista de Teatro com o Melhor Projecto Sonoro.

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