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Clowns de Shakespeare – Uma ‘Trupe Teatral Danada para a Brincadeira’ em “Sua Incelência Ricardo III” |   O pano caiu oficialmente sobre a 36ª edição do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica – FITEI na passada segunda-feira. Na verdade, h Global News Portugal

O pano caiu oficialmente sobre a 36ª edição do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica – FITEI na passada segunda-feira. Na verdade, há ainda para ver “Não sobre o Amor”, a peça que por motivos imperativos foi adiada para hoje, dia 13, às 21h30, e com direito a repetição amanhã, sexta-feira, às 16 horas (sim, é a essa hora) no Teatro Nacional de São João.

A praça D. João I, defronte ao ‘Rivoli’, engalanou-se de artefactos cénicos e bancadas para a assistência. O pano caiu sobre o FITEI, mas os ‘Clowns de Shakespeare’, oriundos do Rio Grande do Norte, no Brasil, quiseram deixar uma muito positiva nódoa no tecido. “Sua Incelência Ricardo III” revelou-se como um objeto teatral rico na sua diversidade tipológica, pois ramifica-se em Farsa, tem laivos de Opereta e é de igual modo e, de forma circunstancial, também Commedia dell’Arte, para além disso são notórias algumas pinceladas de Burlesco.

A peça abre com uma surpreendente versão coletiva de “Daydream”, a música que no final dos anos 60 celebrizou os belgas Wallace Collection, com todo o elenco e a boa voz a cantar o tema. O colorido das vestes encheu logo aí a conhecida praça, que para efeitos de cenografia já contava com carroças ciganas, luzes em formato suspenso de ramada (os O’queStrada haveriam de gostar de tocar ali), sombrinhas chinesas e outros elementos cénicos, que compunham uma espécie de picadeiro de circo.

Os personagens vão ocupando o espaço paulatinamente, através de um desfile de disfarçados, onde se descortina uma mistura bizarra composta por máscaras chinesas e aparência de palhaços mambebes, revelam-se versáteis a tocar e a cantar, para esse mesmo efeito estão munidos de acordeão, trompete, clarinetes, um órgão, guitarra, entre outros instrumentos. Percebe-se desde logo uma adaptação livre do texto clássico de Shakespeare, que na essência estabelece a ligação entre o sertão brasileiro e a Inglaterra isabelina.

A trama decorre em crescendo, com Ricardo III a afastar todos quantos se opõem à sua escalada para conquistar o trono até à sua morte, o texto clássico é aqui e ali espicaçado por alusões políticas, com carácter subliminar, ao estado atual do Brasil, introduzidas no decorrer da ação e por analogia de contexto.

O labor de investigação musical cuja demanda recai nas “incelências”, um género cuja origem tem a chancela genética dos hábitos associados aos rituais fúnebres nordestinos,  casa bem com as versões a preceito de”Bohemian Rhapsody” dos Queen, depois de mais uma morte ordenada por Ricardo ‘III’: “Mama, just killed a man. Put a gun against his head. Pulled my trigger, now he’s dead”, bem como ” The Logical Song” dos Supertramp, num outro momento.

O trabalho notável de Gabriel Villela, um dos mais importantes encenadores do Teatro Brasileiro Contemporâneo, é perceptível na disposição das personagens no espaço cénico, na forma como se articulam e na capacidade de extração do melhor desempenho individual e coletivo ao nível do elenco. A verdade é que não é bem teatro de rua, é mais teatro representado na rua, e também do que melhor se viu no FITEI: foi por isso mesmo que alguns dos que estiveram presentes na última segunda-feira já tinham visto a peça no dia anterior.

João Fernando Arezes


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