créditos: Sérgio Claro
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Deve começar por dizer-se que esta evocação à obra de Ingmar Bergman é um artefacto com alguma densidade de conteúdo e cujo entendimento estrutural estará mais facilitado à partida, muito naturalmente, para aqueles que conhecem o universo do cineasta sueco.

Há um muro seminal, esbranquiçado e perene de musgo, projectado no ciclorama e que é testemunha-cenário de tudo o que se passa em pleno palco. E a génese da paixão por um autor/criador tem subjacente por vezes esse misto de uma certa incompreensão somado a uma componente de fascínio, tal como aconteceu com Olga Roriz: “Este autor acompanha-me desde os meus vinte e poucos anos. Quando vi pela primeira vez o Persona não percebi nada (risos), mas achei a Liv Ullmann e a Bibi Andersson duas mulheres lindíssimas e achei também o filme muito bonito.”, diz-nos numa conversa à posteriori de um ensaio.

“A Meio da Noite” nasce desse exercício de apreciação estética da coreógrafa em relação à filmografia de Ingmar Bergman, que se foi intensificando ao longo do tempo. “Sempre o considerei muito profundo, sempre apreciei muito os guiões, os textos e os temas que ele aborda: a problemática do ser o humano, os nossos conflitos internos e com os outros. Bem como a sua faceta de encenador, para lá do realizador”, acrescenta a artista.

créditos: Sérgio Claro

E com naturalidade, os demais intervenientes no processo criativo, vulgo bailarinos, banharam-se de um naipe de filmes icónicos como O Silêncio (1963), Paixão (1969), A Vergonha (1968) A Hora do Lobo (1968) e Lágrimas e Suspiros (1972) para o cumprimento inicial do desafio. E sim, podem deslindar-se outros momentos “fílmicos” no espectáculo como A Paixão de Ana (1969), à laia de pequeno (grande) exemplo de múltiplos. Deste modo, o elenco composto por André de Campos, Beatriz Dias, Bruno Alexandre, Bruno Alves, Catarina Câmara, Francisco Rolo e Rita Calçada Bastos podia começar a trilhar o percurso bergmaniano na icónica mesa que surge no estrado na parte inaugural do trabalho coreográfico.

Traçado o enquadramento, o ponto de partida, pode definir-se a última criação de Olga Roriz como um espectáculo pautado pelo entrecruzar constante de linguagens artísticas: da simples performance à representação teatral ‘em estado puro’. A dança afirma-se em porções irregulares, quando na abordagem temática é requerida e faz sentido em termos de gramática de palco, talvez um pouco menos abundante do que noutras criações. O vídeo altaneiro com os intérpretes de “A Meio da Noite” afina pela complementaridade expressiva e confere um GPS situacional à narrativa, sem com ela interferir, numa operacionalidade imagética subtil.

A peça é, de certa forma, em termos de resultado final o próprio processo de criação, pelo menos até à altura em que a narrativa descola e os sete bailarinos tomam posse de toda a matéria artística e acabam a preenchê-la com os discursos, os monólogos, os gestos, os eixos corporais e os movimentos anatómicos desenhados a solo ou em toada colectiva. A contenção de Bergman ou por contraponto as erupções violentas de dimensão psicológica estão bem vincadas.

créditos: Sérgio Claro

Espelha-se desde a pesquisa inicial de ‘como dar corpo’ e forma à peça, através da demanda individual e colectiva dos intervenientes, no caso os próprios bailarinos, em pleno escritório e a discutirem os contributos para a estrutura da peça até ao soltar da criatividade. E depois disso há o desnudar de Bergman sem lhe retirar o elã cativante do enigma sempre presente na(s) sua(s) obra(s).

Para quem ousar fazer uma terapia a favor do preto talvez valha a pena estar atento às cenas finais da peça, com todo o cenário preenchido dessa mesma cor em belíssimos planos de imagens. É mais ou menos por essa altura que tudo nos remete para a hora do lobo, a tal hora “entre a noite e o dia, quando todos os fantasmas se libertam, quando mais pessoas morrem e mais pessoas nascem.” O mergulho de Cronos emerge logo no início com um marcador do tempo a afinar o compasso. O mistério é, por paradoxo, uma elegância anacrónica de Bergman.

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