- publicidade -

A declamação inicial de “Minor Matter” tem um expressivo pendor poético. A sala fica imersa num nevoeiro que invade o espaço. O contraste entre os figurinos atléticos e o copioso porte dos bailarinos contrasta com a música de corte que ecoa. Os corpos estão entrelaçados, dão-se nós nas anatomias.

A espaços verificam-se alguns números de acrobacia, é assim no início bem como no final. Ligia Lewis, Jonathan Gonzalez e Hector Thami Manekehia vão-se apoderando do linóleo e do espaço circundante. Lutam de forma leal num jogo constante. Entram em tomada de po(s)se, por vezes.

créditos: José Caldeira/TMP

No léxico da dança deslindam-se sinais de erotismo mais acentuados quando a peça coreográfica está prestes a cortar a linha da meta. Há fadiga e há retoma física. Por vezes há também uma espécie de luta greco-romana. Estamos certos que pela performance atlética e pelas posições adoptadas pelos intérpretes não seria demasiado arriscado dizer que Usain Bolt gostaria de ver este “Minor Matter”, de Ligia Lewis, a dominicana que cedo rumou aos EUA.

O negro dos corpos sobressai sempre que contrastado com as luzes de diferentes tonalidades, também com o azul mas mais ainda e sobretudo com a cor vermelha, que paira na dimensão espacial através de uma conexão de feixes paralelos a aparentar um laser extensivo. Esta segunda parte da trilogia Azul, Vermelho e Branco, qual Kieślowski, põe precisamente em evidência a questão da negritude, com subtileza insinuante.

Deslinda-se uma leveza de movimentos e até uma atmosfera disco cai bem com “I Feel Love” a resgatar um elogio sonoro a Donna Summer. Flutua uma ambiência mística naquela trilogia de matéria anatómica. Por vezes há um rodopiar longitudinal cujos elos de união são as mãos e um rolo compressor desliza suavemente sobre o linóleo, progredindo sem mácula.

créditos: José Caldeira/TMP

A concepção e coreografia desta peça, por parte de Ligia Lewis, alojou o conceito versado em “Minor Matter” nessa vastidão existente entre os dois pólos que a frase consagra: “ A cor vermelha concretiza pensamentos entre amor e raiva.” E torna-se óbvio que os bailarinos-atletas (ou vice-versa) estiveram todo tempo a deixar chancela corporal em palco situados entre essas extremidades emocionais.

No fim, ninguém se livrou de uma purificação inesperada, a densa névoa que se espalhou conferiu a todos o estatuto de espectadores incensados.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.