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O trabalho coreográfico em torno de “Jungle Red” é importante pelo que diz, em abstracto, mas mais ainda pelo que sugere. Pelo que encerra, mas sobretudo pelas ilações, pelas múltiplas visões que permite em termos de leitura. “Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros.”, diz-se em toada ‘áudio-poética’, repetida várias vezes no princípio do espectáculo.

E no início, salvo a ambiguidade da interpretação, ‘tudo são flores’. Há uma bateria ornamentada com flores, as projecções aludem, qual papel de parede, a jogos floridos, o guarda-roupa dos intérpretes é um autêntico jardim. Na verdade, a ambiência é de uma selva, de várias selvas, inclusive a urbana, podíamos arriscar. Há pássaros a chilrear o tempo todo. Todavia o horizonte de Carlota Lagido expande-se numa mundivisão que atravessa diferentes paragens, uma panóplia de geografias, de coordenadas, de azimutes étnicos.

Tal como se refere na resenha que o catálogo da programação do DDD ostenta, Jungle Red “É sobre o desejo de plenitude para o mundo. É uma selva idílica, um jardim supremo onde tudo coexiste em harmonia.”

A música está muito longe de ser despicienda na criação da atmosfera: Pedro Melo Alves (que entre outros projectos, integra o The Rite of Trio e Axes, de João Mortágua, ambos de matriz jazzística) desenhou um guião musical que permite enquadrar toda uma paleta de sons que geram uma banda sonora envolvente. O trabalho de videoarte de Antoine Pimentel é notável. As imagens projectadas no cenário e no linóleo auxiliam à percepção global, tal como os figurinos, cuja autoria é tributária da coreógrafa que dirige o espectáculo.

Os intérpretes estão em sintonia, há momentos interessantes como à laia de exemplo aquela espécie de Adão e Eva e a descoberta do outro, sempre em registo de harmonia na partilha com o próximo, com o outro ser. Há algo de sensorial misturado com uma inequívoca e bem traduzida dimensão espiritual. O que não impede a existência de momentos mais histriónicos de que a própria selva se reveste enquanto habitat de múltiplas espécies.

créditos: Jose Caldeira/TMP

O homem, os animais e a natureza e os elos de ligação entre os mesmos enquanto entidades que habitam um espaço comum são versados em palco em constantes alusões metafóricas por um elenco a preceito: Bruno Senune, Flávio Rodrigues, Guilherme Pompeu Joana Castro e Mariana Amorim dão a cara pela peça, mesmo que a espaços e por paradoxo representem personagens sem rosto.

O labor artístico de Carlota Lagido pauta-se pela diferença. O objecto artístico criado pode não agradar a toda a gente, mas no mínimo surpreende. E a surpresa na arte (em qualquer das artes) é em si mesma uma virtude suprema.

créditos: Jose Caldeira/TMP

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