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Há, desde logo, uma imagem forte que traceja com ênfase a nossa memória visual quando assistimos à peça “(A Tragédia de) Júlio César”. Trata-se da conspiração feita na sombra, com aquela matriz de recorte dos actores em palco imersos numa ‘semi-penumbra’, onde a sentença de morte de Júlio César é gizada. “Apetecia-me que não se vissem as caras (que é uma coisa muito ingrata para os actores), para que nós, a partir da plateia, pudéssemos colocar os rostos que nos apetecesse em cada uma das silhuetas”, confessa sobre o assunto o encenador Luís Araújo ao Global News.

A Ao Cabo Teatro estreia nesta sexta-feira a peça (A Tragédia de…) “Júlio César”, baseada na obra de William Shakespeare, num momento em que tomou conhecimento de que foi uma das companhias excluídas no âmbito do concurso da DGArtes para o financiamento no biénio 2020/2021. Tem assim um sabor agridoce esta estreia, pelo menos a julgar pelos resultados provisórios enviados às companhias no que toca à atribuição pecuniária fundamental para a operacionalidade das estruturas artísticas.

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Com Luís Araújo ao leme da direcção artística, após a transferência de Nuno Cardoso para o Teatro Nacional São João, a busca de uma estratégia e filosofia distintas da do líder cessante para o trabalho da Ao Cabo Teatro (pres)sente-se na abordagem com recurso a outros suportes, como é o caso da adopção mais marcada das novas tecnologias em cena, designadamente pela linguagem do vídeo: uma mudança ainda assim não disruptiva com o caminho prosseguido até aqui. Há, de resto, uma curiosidade feita da intersecção entre ambos e que põe na calha, ou em cena, o mesmo deleite pela revisitação de textos clássicos.

“Júlio César” reflecte deste modo a tragédia de um homem e da sua forma de pensar o mundo, de certa forma. Mas a queda de um tirano não substitui o modus operandi da ascensão de outrem para o seu lugar, bem como as motivações que precedem essa escalada e a voracidade pelo poder. “Mais do que política, esta é uma peça sobre a nossa vida em comum ou sobre a nossa incapacidade de vida em comum”, sentencia Luís Araújo. E reforça o raciocínio: ”Fala da nossa incapacidade de lidar com os outros e com a ambição dos outros e desta face à nossa própria ambição”, conclui o encenador. É na esfera deste jogo que tudo se passa em pleno Império Romano e que espelha o binómio da complexidade entre o poder e o declínio e de como à tirania se soma uma outra tirania que lhe sucede, numa sucessão mais feroz ainda.

Por seu turno, Jorge Mota é o actor de serviço que se investe das funções de interpretação do tirano sobre quem todos conspiram. A proposta de encarnar Júlio César é desta forma avaliada pelo intérprete “Tem sido um desafio muito gostoso, e não custoso, este trabalho. Tudo tem decorrido de uma forma natural, nós (actores e encenador) temos uma vivência que já nos permite olhar de uma outra forma para o Júlio César e fazer leituras”, e, prossegue, após uma curta pausa, para completar: “ O Luís forneceu-nos muito material para trabalharmos, desde filmes sobre políticos e as respectivas interpretações, com o intuito de desenharmos caminhos e estratégias (…) enfim, o boneco que ali está não sabemos se dirá alguma coisa às pessoas, vamos ver…”, conclui com esta dúvida e expectativa o actor.

A tragédia de Júlio César exponencia-se para além da condição do homem ou do poder que ele possui e explicita a tragédia da metrópole de um império enquanto palco central dos acontecimentos e pólis da vida em comum dos homens. Uma corte pútrida, alienada e devassa faz da intriga um desporto e da conspiração uma arma letal, ambas com resultados concretos. Saborosa está a ideia de um perfil de personagem a versar Júlio César cujo discurso se faz a partir de um palanque, de um púlpito, em que o microfone está instalado num contentor do lixo. A retórica recicla-se, mesmo quando afinal nada de tão substancial se altera desde o Império Romano até ao século XXI. Estreia hoje, sexta-feira, 11 de outubro, e permanece até ao dia 20 do corrente mês. Pode ser vista qua + sáb às 19h00, qui + sex às 21h00 e dom às 16h00.

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