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Há uma linha que separa a jornalista da artista plástica em Teresa Canto Noronha? A existência de uma complementaridade funcional aparenta ser bem pacífica entre as duas actividades que a profissional assimila e desenvolve. E a existir, teriam de ser várias linhas pois, em boa verdade, “A Falácia da Perfeição”, título da mostra que a artista trouxe ao Porto e que poderá ser vista até 21 de Dezembro no Palácio da Bolsa, a definição do traço fez-se neste caso de um modo mais circular do que linear.

O mármore alaranjado das paredes que ladeiam o corredor do andar cimeiro do Palácio da Bolsa ostenta, desde a passada quinta-feira, um conjunto de obras cuja inspiração bebeu da fonte das mandalas orientais: as geometrias policromáticas ali plasmadas também parecem remeter para a relação existente entre o homem e as divindades. O olhar do observador, do visitante, desvenda sem denodado esforço o efeito dessa tentativa de comunicação entre o humano e o cosmos, tarefa mais fácil se aos nossos olhos adicionarmos um certo sentido de espiritualidade. Há quem, com um pouco mais de ousadia, tenha apelidado o efeito óptico como uma autêntica trip.

À parte as referências aos hipotéticos paraísos artificiais resultantes do trabalho exposto, na folha distribuída a quem visita a exposição, Teresa C. Noronha assinala o conceito: “A ideia de que é possível atingir uma qualquer forma de equilíbrio através da perfeição é, apenas, um caminho para o desespero. Uma ilusão.” E para uma noção mais definitiva da ideia que subjaz à concepção dos trabalhos da mostra, finaliza: “A perfeição só se vislumbra quando se deixa de dar atenção ao detalhe, sem que isso ponha em causa a capacidade de sentir a harmonia do todo. Em vez da ditadura do pormenor.”

E no seio dessa circularidade que prevalece nos trabalhos expostos, 13 desenhos, parece existir uma pitada de arte asteca, algo que contrasta bem com o perfil caucasiano da autora. Rigor e paciência são atributos que Teresa C. Noronha conhece do ofício de repórter e que servem também como ferramentas auxiliares de criação na órbita das artes plásticas, deposita porções de minúcia nos desenhos que preenche a tinta-da-china e adiciona-lhes uma boa dose de talento. O resultado é um caleidoscópio colorido e profuso, por vezes assimétrico, mas harmónico no todo e nas partes. Se o nirvana não é tangível, Teresa Canto Noronha faz pelo menos uma bela catarse.

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