A peça, cuja dimensão é em termos de linguagem e expressão de foro marcadamente transdisciplinar, começa com o depoimento sintético dos 34 participantes, instalados numa bancada de quatro patamares, em jeito de apresentação individual de resultado colectivo. Com profissões, idades e proveniências distintas, o discurso dos intérpretes comunitários é também ele um relato sucinto de categorias díspares: ora é directo, ora é enigmático, ora é desconcertante. Aqui e ali há descrições pontuadas por laivos humorísticos carregados de ironia. Pessoas diferentes, que nos olham de frente. E no final deste introito, em que simultaneamente se apresentam e se interrogam, partimos todos através de uma incursão pelo palco que nos conduzirá ao “Princípio dos Tempos”.

Panóias, complexo arqueológico próximo de Vila Real, é a génese, ponto de partida para este trabalho que a Circolando a convite dos Teatros de Vila Real e Bragança transportou para o estrado. Por paradoxo, ou talvez nem por isso, o espectáculo traduz bem a expressão do “Espírito do Lugar” (designação eleita para o labor artístico que a companhia desenvolveu em trabalhos precedentes no Porto). Panóias é, por conseguinte, um sítio de devoção aos Deuses, cuja edificação remonta ao período entre os finais do século II e o início do século III d.C.

“Clarão” traduz o conjunto de ritos possíveis a partir de algo que é verosímil, sem deixar de ser ficção. O sagrado feito celebração artística plasma-se no palco logo após a mudança de cenário, algo que é precedido com recurso a um vídeo que nos enquadra no local e no afagar simbólico das pedras, na carícia das mãos que meigamente as agita uma contra a outra. É preciso não esquecer que o Santuário de Panóias é na essência um complexo constituído por três fragas principais (com as cavidades moldadas na rocha para que coubessem as vítimas animais que eram alvo dos sacrifícios, nessa espécie de oferendas aos deuses, nas respectivas celebrações).

créditos: Paulo Araújo

Assim, em pleno palco do Teatro Nacional São João – TNSJ os intervenientes dispõem-se em formato de meia-lua para observarem os movimentos dos bailarinos Bruno Senune, Daniela Cruz e Valter Fernandes e, paulatinamente, partindo do curioso lugar dos assentos (cadeiras de diferentes tamanhos e dispostas em alternância de alturas) em direcção ao linóleo onde os três bailarinos já se digladiaram em rotações e movimentos, os demais intérpretes vão-se dispersando pelo território e a espaços vão-se tornando mais gregários em ajuntamentos corporais que convocam mais gente e os grupos crescem, deste modo, em adesões solidárias. Ficam compactos, em bloco, como uma rocha. As luzes fluorescentes brancas dão enlevo de oposição face ao escuro que se apoderou do estrado.

Mais adiante, a nuance coreográfica torna imperativa a dispersão dos corpos amontoados e entrelaçados. E há sempre a divindade heliocêntrica a testemunhar tudo, um Sol gigante em espasmos de vermelho mais carregado ou laranja. Estamos em Panóias e poderíamos estar em Stonehenge, uns bons séculos antes deste tempo e deste lugar que “Clarão” evoca, numa outra dimensão espácio-temporal.

créditos: Paulo Araújo

Deve realçar-se que o contraste entre o som e o silêncio, a dualidade que se inscreve na narrativa, é um dos pormenores com a máxima importância no enquadramento e na dinâmica da peça. Como é apanágio de muitos dos trabalhos versados por esta estrutura artística, “Clarão” possui uma feição visceral que se afirma no plano da interpretação. O tributo às divindades torna imperativa a amostragem do sangue no plano da ritualização e essa parte enfatiza o lado mais simbólico, que de resto se releva um pouco mais adiante nos diferentes símbolos ostentados na cabeça pelo trio de bailarinos naquele jogo tribal. E é também nesse registo tribal que se dá o epílogo, com todos a estremecerem seminus numa epifania colectiva: um contingente anatómico abalado por um “Clarão” potente e que acaba prostrado no solo. O temp(l)o dedicado aos deuses severos e a Serápis parece ter valido a pena nesta coreografia antropológica. André Braga, Cláudia Figueiredo e a restante equipa da Circolando, os intérpretes profissionais convidados, bem como o grupo da comunidade local, merecem amplos elogios pelo resultado.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments