Lauren Maganete

Inaugurado a 9 de Outubro de 1976 e, por conseguinte, prestes a completar 42 anos de vida, algo moribundo mas ainda a espelhar sinais vitais, o Centro Comercial Brasília continua de pé.

Lugar de romagens massivas ao fim-de-semana para famílias inteiras que nunca haviam experimentado andar em escadas rolantes durante o período pós-25 de Abril, espaço de lojas míticas como a discoteca Vadeca – cujo reconhecimento nominativo nada se prende nos dias que correm à venda de álbuns discográficos de outros tempos, mas antes a serviços de limpeza-, ou ao sítio também conhecido pelas escadarias interiores onde a separação de espaços entre os degraus ficou famosa pois permitia aos mirones deliciarem as vistas de baixo para cima, o também conhecido por Shopping Center Brasília foi o eleito pela Circolando para dar asas artísticas ao Espírito do Lugar 4.0, no âmbito do programa Cultura em Expansão cuja responsabilidade pertence à Câmara Municipal do Porto, entre os dias 14 e 23 de Setembro.

Experimentamos um ensaio-geral, primeiro. E num dos dias subsequentes seguimos num dos seis grupos de pessoas, enquanto espectadores, numa das sessões de apresentação destinadas ao público.

Tal como as romagens sobre as quais aludimos no início, desta feita a viagem, em toada de peregrinação artística, faz-se à custa dos gémeos e dos elevadores do edifício. Os grupos são estabelecidos à entrada do ‘Brasília’ por via de atribuição numérica: a cada um dos participantes é atribuído um. Há também um guia para cada um dos contingentes que são compostos por mais de 20 pessoas. À parte a teimosia caprichosa dos ascensores em não quererem obedecer ao chamamento, não existe qualquer laivo de confusão no seio dos interstícios do Centro Comercial.

Lauren Maganete

Subimos até ao terraço cimeiro, onde uma altaneira paisagem nocturna expande as luzes da cidade. Um vulto, uma figura de branco, afirma-se caminhante no espaço murado que parece composto por tanques, tal é a forma semelhante das pequenas áreas confinadas por muros com umas pias mais largas. A musa alva está descalça e espalha o olhar pelo horizonte marcado pela escuridão em contraste com as luzes. E a dada altura a sua boca acaba a expelir um discurso profético-filosófico sobre o progresso e a modernidade. Fala do lixo e do luxo. Baudelaire está presente, entre outros.

Convida-nos, em seguida, a olhar em redor e mostra-nos em todo esplendor a Filosofia do Progresso. Com um projector de luzes aponta para um edifício e aproveita o desígnio de alguém que “quer empregar o mínimo de material para empilhar o maior número de homens”. Depois de quase no início do desempenho ter dominado a parte mais alta do edifício com direito a uma espreguiçadeira para desfrutar a conquista e de ter agitado a bandeira negra da anarquia, Margarida Gonçalves desaparece por entre os muros, abandonando o vestido que a trajou em “Brasília Dreamer”.

Lauren Maganete

Nova incursão pelos corredores, após uma descida degrau a degrau do andar mais elevado para um patamar inferior. Somos guiados para a entrada do cinema Charlot, sem que muitos o percebam. O desafio é entrar na sala numa atmosfera de absoluta escuridão, apenas com a luz necessária para que ninguém possa tropeçar à entrada. Um jogo de silêncio e de sons que nos desafiam à evocação da sétima arte.

Catarina Gomes, a actriz que se incumbe deste desempenho, vai desfiando referências orais, até que na nossa fila alguém entra em ligeiro pânico sem o denunciar na forma verbal, mas apercebemo-nos pela respiração ofegante e pelo pedido sussurrando de que quer sair dali e afastar-se às apalpadelas até à entrada da sala, de que apesar de tudo, embora com dificuldade, conseguimos adivinhar onde fica. Os frames, as 170.000 fotografias referenciados “Em Exibição:” (nome do episódio) ficam para trás ao fim de um quarto de hora de permanência, com a magia da luz a surgir e a mostrar-nos uma sala surpreendentemente intacta depois de anos de abandono. O cinema enquanto arte e o cinema enquanto espaço físico fundem-se finalmente. Não chupamos dropes de anis, mas estivemos bem no escurinho do cinema a que a música de Rita lee alude.

Lauren Maganete

Mais uma caminhada por um corredor estreito que passa entre os escritórios e departamentos do Charlot. Desembocamos no exterior: num pátio algo desconfigurado, onde um palhaço parece ter aterrado nesse preciso momento e se debate com o respectivo pára-quedas. Prosseguimos para um espaço descarnado, sem cobertura, onde assistimos à história de um malogrado palhaço que supostamente morreu enforcado, mas que no final e após confissão do personagem que o representa, e era o seu companheiro em vida, ficamos finalmente a saber que estamos diante do próprio homicida do verdadeiro palhaço invocado. Fatalismos e tragédias à parte, gostamos da versão sentida de “The Show Must Go On”, dos Queen, com Gil Mac no canto e João Sarnadas nos teclados, com a direito a bola de espelhos e tudo!

Lauren Maganete

A verdade é que o espectáculo tinha mesmo de continuar depois do precedente momento denominado por “Halwain”. E nada melhor do que neste ritual de peregrinação artística ir desembocar nas escadas rolantes junto à entrada do Brasília que se situa defronte ao Hospital Militar do Porto.

Lauren Maganete

Em primeiro lugar, há metáforas da vida bem construídas. A poética da exaustão nas escadas rolantes, protagonizada por Costanza Givone, é sem dúvida um dos momentos do espectáculo. O privilégio de ter a banda sonora de Nina Simone, com “Who Knows Where The Time Goes”, enquanto os degraus metálicos se estendem e comprimem, enquanto avançamos e recuamos nos degraus da vida: afinal estamos todos ali com ela. O vestido azul expele o suor do esforço de subir em sentido contrário as escadas, qual poema de Gedeão “Calçada de Carriche”: Luísa (que o mesmo é dizer Costanza) sobe, sobe a calçada (escadas rolantes), sobe e não pode que vai cansada (…). Ir contra a corrente é sempre cansativo. E ela fita-nos através do olhar de quem é portador de uma fadiga expressiva, mas parece não querer desistir da luta. Deste episódio “10.000” passos” fica-nos o sacrifício e a poesia visual. E é, por outro lado, uma bonita homenagem aos milhões de viagens proporcionadas pelas escadas rolantes do Brasília ao longo destes mais de 40 anos.

Lauren Maganete

Nova descida, desta feita para os fundos, para as profundezas do parque automóvel, bem na cave. Alguém varre por trás de uma porta, dissimulando o rosto. Entramos para um espaço exíguo marcado por um intenso bafio. O lugar tem o seu quê de claustrofóbico, uma espécie de arrumos cujo número é o 107. Uma figura de aparência bizarra, com uma máscara, dá as ordens e fala do pardal da coroa branca e das suas características. A voz soa cavernosa o discurso é entrecortado por alguma interacção com o público. Há um bailio de ventoinhas com um efeito visual ampliado pelas sombras das mesmas e da figura do homem. E uma dissertação que versa “24/7” de Jonathan Crary e de “A Estátua e Eu” de Henri Michaux. No ensaio a abordagem quase tétrica fazia temer por alguns abandonos face ao ambiente criado, a versão final não nos trouxe um Paulo Lopes tão próximo de um vocalista de thrash-metal quanto o presenciamos num dos dias anteriores. Mas “24/7” é também ele um episódio a reter.

Lauren Maganete

Uma suave escalada conduz-nos até a um espaço que reconhecemos ser um pequeno pavilhão de duas salas onde outrora se praticou squash. “Morgan et Mustang” é o nome deste ponto de paragem ‘artístico-desportivo’, que podia muito bem ser uma abordagem à indústria automóvel. Entre um vidro que serve de fronteira com o espaço cénico deparamo-nos com duas figuras femininas que tecem movimentos lentos e suaves. Estão sentadas em duas bicicletas de ginásio cobertas por tecidos, nas quais acabarão por pedalar mais lá para o final do episódio. Ensaiam poses de uma espécie de render da guarda ateniense ou marchas a aparentar os desfiles militares na Praça Vermelha, em Moscovo. Por outro lado, entre movimentos sincopados descrevem um bailado acertado e posições em câmara lenta de quem podia ser praticante do dito squash. Sobe-se ao andar de cima e aprecia-se, desta vez sentados, o evoluir das cenas. A parelha acaba a pedalar e a limpar o vidro.

Lauren Maganete

A cerimónia evocativa do Espírito do Lugar 4.0 termina no sétimo po(s)nto com os diferentes grupos sentados em cadeiras e nos degraus de uma das escadarias interiores, onde decorre a projecção de um filme-documentário explicativo do fenómeno da eclosão e declínio dos centros comerciais e em particular ao enquadramento histórico e arquitectónico do processo de construção do Centro Comercial Brasília, a que foi conferido o nome de “Idade do Ferro”, da autoria de Gonçalo Mota e Vítor Costa.

Os aplausos falam por si, numa aposta ganha pela Circolando que tem dado a conhecer fora do habitual bilhete-postal citadino alguns dos locais menos conhecidos da Invicta através de diversos espectáculos-percurso.

Direcção artística: André Braga e Cláudia Figueiredo
Co-criação e interpretação: Ana Isabel Castro, Catarina Gomes, Costanza Givone, Daniela Cruz, Gil Mac, Margarida Gonçalves e Paulo Mota
Co-criação e vídeo: Gonçalo Mota e Vitor Costa

Direcção de produção: Ana Carvalhosa
Produção executiva: Cláudia Santos com a colaboração de Carolina Cardoso
Luz: Cárin Geada
Montagem e apoio técnico: Pedro Coutinho

Co-produção: Circolando e Câmara Municipal do Porto / Cultura em Expansão

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