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Toda a gente sabe que a expectativa de ver os Beach House ao vivo em Portugal se renova a cada regresso ao nosso território da banda com origem em Baltimore, nos Estados Unidos. Visitantes frequentes de salas e festivais de verão em landas lusitanas, os ‘norte-americanos’, por assim dizer, na verdade Victoria Legrand é francesa, deslocaram-se desta feita para apresentarem o álbum “7”, o último registo de originais da dupla. Foram ainda portadores dos cerimoniosos Sound of Ceres, também eles oriundos da terra do ‘Tio Sam’, embora neste caso a proveniência seja do Colorado: deve dizer-se que constituíram uma agradável surpresa no palco do Sá da Bandeira, na parte inicial deste ritual para melómanos.

Pouco passava das 21h30 quando o dream pop dos Sound of Ceres se fez ouvir na sala, que a essa hora ainda não tinha atingido o rubro de calor e de gente que a assolou até sensivelmente à meia-noite e dez minutos, quando a epifania findou. A voz melodiosa de Karen Hover irrompe pela sala e cativa os presentes. A luz é manifestamente escassa, há um propósito nessa opção que se torna perceptível gradualmente através de uns enfáticos efeitos audiovisuais, com projecções multimédia que se afirmam em geometrias diversas. Há programações e histórias para contar e uma metamorfose da borboleta nas suas diversas fases: da larvar à alada. E a música praticada acarinha-nos e dá-nos asas também.

Há algo de naïf naquilo que a banda constrói e dá a conhecer com recurso a um processo simples, também ele ingénuo e estruturalmente acessível ao espectador. A electrónica melodiosa e aveludada, muito alicerçada nas programações e na voz, praticada pelos quatro elementos dos Sound of Ceres fica no ouvido e a componente performativa idem aspas. Karen revelou-se uma autêntica prestidigitadora virtual em versão mariposa. 

Após um ligeiro intervalo para a saída de equipamento sonoro, substituição e apetrechamento do material dos Beach House, e do destapar do fosso para os fotojornalistas fazerem o seu árduo trabalho de captação de imagens em ambiente obscuro, eis que Alex Scally, Victoria legrand e o virtuoso baterista que os acompanha na digressão, James Barone, entram finalmente em palco quando faltam 25 minutos para as onze da noite. “Levitation” põe toda gente em bicos de pés e a ecoar gritos saudação. Naquele manso oceano dos teclados, Victoria emerge em iniciático ‘surfar’ de voz, com os longos cabelos a sobressaírem, bem como o vestido negro e plastificado. As luzes plasmam no palco as esfíngicas figuras num contraste acentuado de vermelho e preto. A guitarra de Alex destaca-se e a bateria ritmada de James afirma a sua presença.

A toada continua cerimonial em “Wild”, a sacerdotisa Legrand parece coordenar o culto a partir do seu altar sónico. “PPP” não é música cuja gestão esteja a cargo de uma entidade público-privada, é daqueles embalos harmoniosos em que a capacidade vocal de Victoria se impõe para além da guitarra e da bateria. Toda a gente vai anuindo à proposta musical, conquanto que a canícula vigore no espaço e a tolerância à mesma se afigure como uma tarefa difícil: o suor cozido campeia por ali.

Victoria agradece a presença do público: “Muito obrigado por estarem connosco neste teatro tão bonito”, profere em tom satisfeito. “Dark Spring” sai bem calibrado e faz com que as hostes se agitem. O soalho vibra, no ciclorama há estrelas cintilantes e a batida percutida de James afirma-se com intensidade nos nossos ouvidos. Segue-se uma das que se guindaram ao estatuto de clássicas na discografia dos Beach House: “Heart of Chambers”. A assistência reconhece-a ao primeiro soar dos teclados e aplaude. Há jogos dos perfis com as luzes, a música ecoa quase espectral: com a guitarra de Scally e a bateria compassadas a alinharem com a extensão vocal de Victoria.

“Lazuli” embarca em animação rítmica, a vocalista antecede o tema com nova intervenção a questionar se estávamos bem. Naturalmente que a alta temperatura incomoda, mas não impede de todo a fruição do momento. A francesa está bem pior nesse domínio, pois deve ter perdido uns quilos (in)vestida com aquela indumentária modelada a plástico durante o espectáculo. “L’Inconnue” capta-nos pela génese de cântico que se espalha. Por seu turno, “Sparks” afirma-se pela guitarra robusta de Alex logo no início e a marcação da bateria, a que se colam as vozes de ambos numa fase posterior.

“Black Car” rola a preceito, na toada ambiental que o dream pop executado no estrado consagra ao momento: o público corresponde muito positivamente ao que lhe é oferecido, algo que não é estranho à empatia que Victoria e Alex foram deixando como lastro nas diversas vindas ao nosso país. E a conhecida “Beyond Love” também parece fazer as delícias dos presentes, naquele embalo de penumbra.

É óbvio que os temas do último álbum, percorridos ao longo do concerto, ainda não colhem a mesma receptividade por parte do público, como é de resto, entre outros casos, o de “Drunk in LA”. Muito naturalmente, já o mesmo não se pode dizer de “Space Song” cuja entrada suscita algum gáudio entre assistência. E é com a cadência preponderante dos teclados, o pendor vigoroso com que James Barone trata a bateria e as erupções na guitarra de Alex Scally, que atingimos o último terço de um espectáculo que quase sempre se pautou por um nível elevado de intensidade.“Elegy To The Void” parece ser portadora de alguma carga dramática e emerge no seio de um azul-escuro que povoa o palco, segue-se-lhe o tema repousante “Home Again” até que se ouve um dos temas mais celebrados da noite: “Myth”. E é com este que acaba o ritual. Quer dizer, acaba por momentos, pois os de Baltimore brindam o público com a icónica “Walk In The Park”, logo após uma reivindicação ruidosa. “Dive” é mesmo o fim da liturgia musical. Razão tinha Alex Scally quando a meio do espectáculo disse: “ – We don’t say a lot, but we feel a lot”. Se eles não falam muito, mas sentem muito, que diremos nós de os vermos partir? O regresso é certo e será feito com brevidade.

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