Há concertos que impressionam desde os primeiros acordes, este do Avishai Cohen Trio é um desses exemplos marcados pela singularidade musical, pelo sincronismo instrumental patenteado ao longo de uma hora e vinte minutos na Sala Suggia da Casa da Música.

Tudo começou por volta das 9 da noite com Francisco Sales, o rapaz nascido em Penalva do Castelo, agora emigrado em Londres, e que integra a banda inglesa Incognito (onde figura o percussionista João Caetano, responsável em primeira instância pela ida de Sales para a capital britânica).

créditos: Pedro Jorge Sottomayor


O músico deu muito boa conta de si com uma guitarra acústica que prendeu a audiência na primeira parte do espectáculo, num registo experimental cheio de planícies musicais por via de sonoridades que situamos no seio melódico de um Filho da Mãe ou de Norberto Lobo. A sensação com que ficamos é de que se trata de uma grande promessa nacional na área musical e vai por certo dar cartas num futuro próximo. “Miles Away” é o segundo álbum da carreira a solo do artista e deve-lhe ser devotada alguma atenção por parte dos nossos ouvidos.


Meia hora mais tarde, o palco é preenchido por um banho de luz: misto de cor branca e amarelada e seis projectores vermelhos que criam a atmosfera de acolhimento para a entrada de Avishai Cohen, o contrabaixista e cérebro musical do grupo, Elchin Shirinov, o pianista, e de Noam David, o responsável pela bateria e percussões. “Elli” apresenta-se com aquela génese das teclas pontuada pelas incursões no contrabaixo e pelo afagar das escovas nos pratos, uma sugestão de suavidade melódica logo na abertura.


Segue-se-lhe “One for Mark”, do álbum Continuo cuja cadência é mais ritmada e resulta num ‘triálogo’ perfeito. Avishai continua a domar o contrabaixo, abraça-o e mexe os dedos nas cordas com frenesim, num percurso que vai do ‘braço’ até ao bojo corpulento do instrumento.

créditos: Pedro Jorge Sottomayor


O divertimento expressivo do triângulo harmónico prossegue com “Dreaming”, do registo Seven Seas. À comunhão musical adicionam-se os expressivos movimentos corporais do contrabaixista e os sorrisos não menos cúmplices entre os elementos. No final do tema, o líder curva-se em sinal de agradecimento ao público que o brinda com uma enorme salva de palmas. “Halelya” (ou Hallelujah em hebraico) remete para a meditação e também para um outro Cohen universal, Leonard de seu nome, e bem conhecido de todos. Falamos do álbum From Darkness, de 2015.


A jornada de encantamento vai em crescendo e à elegância e virtuosismo de Avishai soma-se o quilate da prestação de Elchin e Noam: músicos de primeira água e, por conseguinte, de classe inquestionável. Como é apanágio no jazz, o universo parece teatral, a cada uma das deixas de um instrumentista, outro lhe toma o lugar no desempenho feito por solos. “Amethyst”, do já referenciado From Darkness, é a prova cabal disso mesmo. A juntar à equipa prodigiosa de músicos que temos à frente dos olhos, alguém se dedicou e muito a reproduzir uma qualidade de som irrepreensível na sala.


Em “Ballad for an Unborn”, os instrumentos parecem ganhar voz naquela toada de uma gramática musical em que se afirmam e através da qual cordas, pratos e teclas parecem falar entre si.


“Gesture # 1” é o momento seguinte e a comunhão prossegue. “New 6” afina pelo mesmo diapasão e nem sequer adivinhamos que é a ´penúltima do concerto. A epifania culmina com aquele tema estupendo que dá pelo nome de “Seven Seas”, música homónima do álbum editado em 2011. Um encore muito estimulado pelo público, já em pleno gáudio colectivo, foi portador de “Puncha Puncha”, tema em que o baixista e compositor mostra uns copiosos e apreciáveis dotes vocais.


Permaneceram em palco para “Remembering” e, pouco depois, a celebração memorável termina. Ficamos a saber pela própria boca de Avishai Cohen, que teremos mais um ‘lusitano ilustre’ – o músico já pediu o passaporte português: invocando os direitos consagrados aos descendentes de judeus expulsos de Portugal. No caso dele pela ascendência ligada à história da avó e, consequentemente da mãe. Se for para termos mais concertos destes, vale a pena as autoridades passarem a documentação com a maior celeridade.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments