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“São revoluções que cruzam diversos tipos: vão das artísticas às sociais e vão convocando imagens e iconografias através das quais identificamos essa mesma ideia de Revolução”, começa por confessar ao Global News Né Barros, numa conversa no espaço do foyer do Rivoli – Teatro Municipal onde “As Revoluções” da coreógrafa acontecem por estes dias. Não por acaso, num espaço onde há uma dúzia de anos cerca 30 pessoas se barricaram para fazer uma ‘Rivolição’ contra a medida de Rui Rio de entregar o espaço nobre da cultura autárquica à gestão privada (atribuída, soube-se depois, a Filipe La Féria).

Curiosidades à parte, o trabalho que hoje é estreado (com nova apresentação amanhã às 19h00) traduz-se “num objecto, num artefacto poético e singular”, enfatiza a também responsável pela direcção deste trabalho de dança contemporânea. Tudo isto “Pensando que as revoluções possuem uma utopia prática, forças e fragilidades, e portanto podem ser um instrumento fundamental de mudança que serve para questionar e que também serve na sua essência como contributo para devolver humanidade ao mundo”, conclui.

A paleta cromática que se vislumbra pela ‘mar(n)cha colectiva’ dos bailarinos consagra o princípio da identidade, transmite o artefacto artístico a abstracção das bandeiras, a noção de fronteira e de nacionalidade. E no final há uma espécie de Adão e Eva, nus, feitos intérpretes da dança, mas sobretudo caminhantes de passo incerto e desequilibrado, quase trôpego e desajeitado, a ocuparem o estrado, como se tudo regressasse ao início dos tempos. Conquanto que tudo afinal comece na coxia central entre movimentos distintos e pausados dos bailarinos.

Assumimos a analepse desta narrativa e no retorno a essa génese do espectáculo logo se anuncia a operacionalidade paulatina da mudança, o cerne e desígnio filosófico de todas “As Revoluções”. Os movimentos lentos e planados vão-se metamorfoseando, desde que percorrida a ala central do auditório e a subida ao palco, e dão lugar a movimentos mais lestos: nessa altura os intérpretes já têm vestido os seus fatos-macacos de cor vermelha, branca, verde, azul e cinzenta, isto para além do cor-de-rosa que foi o primeiro a ser vislumbrado no linóleo.

Entre movimentos circulares, pinos e eixos abstractos há uma mobilidade que apela ao enfileiramento panfletário e a sugestão de gestos e quadros de revolução em palco sucede-se por força dos desenhos anatómicos, num todo que vale a pena apreciar “in loco” hoje, sexta às 21h00 e amanhã, sábado, pelas 19h00.

Ficha técnica

Direcção e coreografia: Né Barros, Coletivo Haarvöl e Música Digitópia (Casa da Música)

Desenho de luz: José Álvaro Correia

Intérpretes: ElisabeteMagalhães, Jeremy, José Meireles, Julio Cerdeira, Sónia Cunha e Vicente Branco
Co-produção: Rivoli Teatro Municipal e Balleteatro

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