E quem quer visitar um Museu?

O filme do “Museu de Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição” dos arquitetos Spaceworkers e produzido pela Building Pictures, através do confronto de duas gerações, abre o debate sobre a importância dos Museus nos dias de hoje face ao mundo digital em que vivemos.

No filme somos guiados pela visita de uma mãe que adora visitar museus e pela voz-off do seu filho que questiona o interesse das visitas: “E quem quer visitar um museu? Não é apenas um espaço, cheio de histórias que aconteceram há séculos atrás? E histórias sobre… pessoas que não estão vivas e que nunca tiveram Facebook ou Instagram? E porque visitaria um museu, que foi anteriormente uma igreja? Ainda não ouviram falar do Google?”

O Museu Damião de Góis, situado em Alenquer, localiza-se numa antiga igreja que foi recentemente reabilitada, pelos premiados arquitectos de Paredes, para contar a história do humanista Damião de Góis e sobre as vítimas de inquisição. No filme, o filho conta-nos que este é o museu favorito da sua mãe: “ Eu acho que ela gosta do facto de velho e novo, passado e presente estarem juntos”.

Mas afinal não são os filmes também eles objetos digitais? Através do debate o filme pretende convidar as pessoas a visitar este museu: “A minha mãe diz que na internet não podes compreender verdadeiramente a geometria dos tetos e a textura em tijolo das paredes, ou viajar pelo núcleo fragmentado…”

Museu Damião de Góis e as Vítimas da Inquisição

Intervir num edifício existente é por si só um bom desafio, quando à pré-existência juntamos séculos de história o desafio é ainda maior. A intervenção centra-se na criação de uma estrutura expositiva, alusiva à vida e legado histórico de Damião de Gois, no interior de uma antiga igreja, recuperada, em Alenquer. A igreja, agora esvaziada dessa mesma função, funciona como um espaço “contentor” com uma identidade muito própria, marcada pela geometria dos seus tectos abobadados e pela textura das suas paredes de tijolo, de grande valor plástico.

A proposta procura, precisamente valorizar as características plásticas do espaço, e minimizar o seu impacto na préexistência, respeitando o existente, afastando-se das paredes, procurando uma posição central no espaço, assumindo uma geometria que é familiar ao edifício, originada pelo paralelismo às formas do tecto e paredes, capturando a configuração do vazio existente numa espécie de núcleo, de cor escura, fragmentado, que recebe e organiza a exposição e os visitante.

Este núcleo, apesar de fragmentado, confere ao visitante uma ideia de continuidade virtual, onde os seus vazios são entendidos como momentos de pausa e de contemplação do existente e como momentos de penetração no interior do núcleo, explorando esta relação ancestral de interior e exterior, que nos fascinou desde o início do projecto. O espaço expositivo assume-se como um elemento negro, delicado, que convida à sua descoberta e que se destaca do restante cromatismo do espaço existente, sem nunca se sobrepor a este mas sem perder as suas características espaciais.

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