Esta quinta-feira, inicia-se uma volta ao mundo do jazz a partir de Guimarães. O requisito para entrar a bordo é apenas um: apurar todos os sentidos para contemplar esta viagem que percorrerá projetos de diferentes geografias – Estados Unidos, Brasil, Israel, Alemanha, Áustria, Portugal – que aterram no epicentro do festival, o Centro Cultural Vila Flor. De 08 a 17 de novembro, a 27ª edição do Guimarães Jazz percorre 13 concertos – 5 destes apresentados em estreia absoluta e 6 em estreia nacional – em 10 dias consecutivos, algo que acontece pela primeira vez na história do festival. Como consequência, terá uma mais efetiva e constante presença da música na cidade e na agenda dos seus espetadores, contribuindo assim para aproximar ainda mais os músicos e as pessoas que organizam o festival do seu público. Acrescentado este dado novo, o Guimarães Jazz continua a ser, tal como é a sua matriz desde o início, um festival equilibrado, refletindo-se esse equilíbrio em várias dimensões: na notoriedade e na idade dos músicos envolvidos, na tipologia das formações, na proveniência geográfica dos projetos e nas estéticas musicais representadas. Em Guimarães, fazem-se ouvir, ver e sentir nomes como Dave Holland, Marquis Hill, Steven Bernstein, Catherine Russell, Dave Douglas, Bill Laswell, Avishai Cohen, Mingus Big Band, entre muitos outros.

A edição de 2018 do Guimarães Jazzarranca com uma estreia em Portugal, dia 08 de novembro, às 21h30, protagonizada pelo mais recente grupo de um dos grandes nomes vivos da história do jazz, o contrabaixista britânico Dave Holland, que neste projeto se junta a Chris Potter, Lionel Loueke (que, no festival, será substituído por Kevin Eubanks, também ele um guitarrista de excelência) e Eric HarlandAZIZA – assim se intitula esta formação composta por quatro dos mais relevantes músicos do jazz contemporâneo, com percursos que se foram cruzando no contexto de outras colaborações no passado recente e que, desde 2015, se reúnem para um propósito de criação artística que tem merecido ampla aprovação crítica e demonstrado em vibrantes atuações ao vivo toda a sua vitalidade musical.


Marquis Hill. Créditos:Todd Rosenberg

Marquis Hill, jovem trompetista norte-americano, apresenta no dia seguinte, à mesma hora, o seu Modern Flows, pela primeira vez em Portugal, com uma banda composta por jovens músicos que confirmam a vitalidade atual da cena jazzística de Chicago. O saxofonista Logan Richardson, o vibrafonista Joel Ross, o contrabaixista Jeremiah Hunt e o baterista Jonathan Pinson são instrumentistas de inegável talento e que, apesar da sua juventude, apresentam já um historial de colaborações e de experiências criativas ao lado de grandes nomes da história da música como Wayne Shorter e Herbie Hancock, adivinhando-se um concerto musicalmente e tecnicamente sofisticado no Guimarães Jazz.

No primeiro sábado do festival, está reservada uma dose dupla de concertos. Às 18h30, surge o Pablo Held Trio. No ativo há doze anos, e já com nove álbuns editados, constitui um dos melhores exemplos da vibrante cena jazzística atual da Alemanha, país de onde são provenientes alguns dos mais criativos músicos e projetos de jazz europeus. A atuação do Pablo Held Trio no Guimarães Jazz será centrada no seu último registo discográfico, Investigations (2018). Às 21h30, é tempo para uma estreia absoluta no Guimarães Jazz e um dos momentos certamente mais impactantes desta edição do festival protagonizado pelo trompetista, arranjador e compositor Steven Bernstein, uma das figuras centrais da cena musical nova-iorquina dos últimos trinta anos, num encontro singular e inédito com Catherine Russell, uma singular cantora de jazz e blues que personifica um espírito de independência musical e uma postura anti-starsystem raras no contexto da música contemporânea. Os dois serão acompanhados pela Millennial Territory Orchestra, a idiossincrática big band fundada e liderada por Bernstein com o intuito de proceder a uma revisitação expansiva e eclética do património da música popular do século XX.


Big Band e do Ensemble de Cordas da ESMAE. Créditos:Paulo Pacheco

No dia 11, domingo, realizam-se novamente dois concertos, ambos em estreia absoluta. Às 17h00, dirigem-se holofotes à vertente pedagógica do Guimarães Jazz, uma das dimensões mais importantes do festival, nomeadamente ao projeto de direção da Big Band e do Ensemble de Cordas da ESMAE, que constitui, a par com as oficinas de jazz, um dos eixos estruturantes dessa vocação formativa. Iniciada em 2012, esta parceria mantém a sua proposta de residência e trabalho de colaboração entre os alunos da ESMAE e o compositor designado para os dirigir, papel que este ano é assumido pelo contrabaixista Matt Ulery, proveniente de Chicago. Pelas 21h30, abre-se espaço para desvendar o resultado da residência Guimarães Jazz/Porta-Jazz que volta, tal como em anos anteriores, a propor uma colaboração artística entre músicos com um artista de outra área criativa, desta vez um videasta. Durante uma semana, um grupo de músicos nacionais e estrangeiros, liderado pelo compositor João Grilo, e o artista convidado (Miguel C. Tavares) testam as suas fronteiras disciplinares e zonas de conforto, explorando novas referências por forma a descobrirem novos caminhos expressivos.


David Helbock. Créditos: DR

Na segunda-feira, dia 12, às 21h30, David Helbock presenteia o público com Random/Control (estreia nacional), um dos vários projetos do prolífico pianista austríaco. Apesar de composto apenas por três músicos, a música desta formação é produzida com recurso a mais de vinte instrumentos. Desde a sua fundação, o grupo já editou três álbuns, sendo o último, Tour d’Horizon(2018), centrado na interpretação de composições dos pianistas que influenciaram a visão artística de Helbock, pelo que o concerto no Guimarães Jazz corresponderá portanto a uma viagem pelo cânone do piano-jazz, através de reinterpretações expansivas de obras de Duke Ellington, Keith Jarrett ou Carla Bley.

No dia seguinte, à mesma hora, o multipremiado acordeonista João Barradas apresenta-se no Guimarães Jazz em quarteto, acompanhado de um grupo de instrumentistas do qual se destaca a presença do saxofonista norte-americano Greg Osby. Baseando-se nas composições de João Barradas e associando promissores instrumentistas europeus da nova geração a um músico de reputação consolidada, como é o caso de Osby, a estreia nacional deste projeto – “Own Thoughts From Abroad” – promete revelar ao público uma música detentora de uma sonoridade própria, desde logo pela centralidade do som do acordeão, enquadrado numa tradição musical da música erudita e do jazz, por forma a tentar criar novas soluções criativas.

Pelo terceiro ano consecutivo, e após duas experiências de grande sucesso primeiro com a big band Lisbon Underground Music Ensemble de Marco Barroso e depois com o guitarrista Nels Cline, o Guimarães Jazz volta a convidar a Orquestra de Guimarães para um novo projeto de colaboração, desta vez com o quarteto “Cartas Brasileiras” de Léa Freire, reforçando assim a intenção de dar espaço de visibilidade e de desenvolvimento artístico aos músicos locais, integrando-os num espírito de partilha de conhecimento capaz de gerar dinâmicas de criação dentro da cidade que acolhe o festival. Apresentam-se em palco, todos juntos, em estreia absoluta, a 14 de novembro, às 21h30.

UPLIFT sobe ao palco do CCVF no dia 15, pelas 21h30, em estreia absoluta. Esta é mais recente formação de um dos músicos mais importantes da cena jazzística nova-iorquina das últimas décadas, o trompetista e compositor Dave Douglas, que aqui se faz acompanhar por um extraordinário ensemble de instrumentistas. De acordo com as palavras do próprio Dave Douglas, este projeto apresenta um cariz marcadamente político, no qual sobressai uma perspetiva crítica dos tempos atuais. Considerando o nível altíssimo dos músicos – Jon Irabagon, Mary Halvorson, Rafiq Bhatia, Bill Laswell & Ches Smith – que acompanham Dave Douglas neste seu novo grupo e o espírito de insubmissão e manifesto que está na génese do projeto, é legítimo esperar uma música inconformada e à procura de novas ideias criativas.

O penúltimo dia do festival está reservado ao quarteto encabeçado por Avishai Cohen, que aqui se estreia em Portugal, às 21h30. Originário de Telavive e sedeado atualmente em Nova Iorque, Cohen é, apesar da sua juventude, um dos mais relevantes trompetistas do jazz da atualidade, detentor de uma sensibilidade musical pontuada por um multiculturalismo inclusivo e sincrético. Embora centrada nas composições de Avishai Cohen, a música deste quarteto – composto por instrumentistas muito experimentados e com créditos firmados no meio jazzístico internacional – é expansiva e multicultural na sua génese, pelo que é possível afirmar que nela respira uma melodia própria, composta por uma confluência de sonoridades.

Depois da lua se deitar e o sol se voltar a erguer, Matt Ulery mostra-nos o seu Delicate Charms em estreia nacional, dia 17, às 18h30. Oriundo de Chicago, sendo atualmente um dos representantes mais destacados da dinâmica musical daquela que é uma das cidades mais importantes do jazz, Ulery é um talentoso contrabaixista e compositor que, durante os últimos vinte anos, tem desenvolvido um sólido trajeto no meio jazzístico internacional, mantendo uma relação de proximidade e cumplicidade artística com alguns dos músicos emergentes da cena jazzística de Chicago. A formação que serve de veículo ao projeto Delicate Charms é reveladora desse fulgor colaborativo.

A edição de 2018 do Guimarães Jazz encerra em grande na noite de 17 de novembro com uma big band – não fosse já tradição –, num momento de celebração do legado de uma das figuras fundamentais da música do século XX, o contrabaixista e compositor Charles Mingus, cuja obra permanece no imaginário coletivo como um símbolo do espírito inconformista e radicalmente inovador que fez do jazz uma das expressões artísticas mais marcantes e revolucionárias da modernidade. Liderada por Sue Mingus, viúva e cúmplice afetiva e artística do homenageado, a The Mingus Big Band é um ensemble constituído por músicos de exceção e de grande capacidade inventiva, sendo considerada um exemplo de vitalidade criativa dentro do universo de projetos dedicados à reinterpretação da obra dos grandes mestres do jazz.

A par dos concertos, o festival contempla igualmente as essenciais atividades paralelas entre as quais encontramos animações musicais pela cidade, jam sessions e oficinas de jazz. De 05 a 17 de novembro, o jazz surge em contextos quotidianos menos previsíveis através das animações musicais, procurando envolver a população naquele que é o principal festival da cidade. A música também visita as escolas e vai ao encontro de todos aqueles que queiram desfrutar do festival. Porque o Guimarães Jazz é de todos e para todos. As jam sessions conferem ao festival uma das suas facetas identificadoras. A sua componente de improvisação revela o lado mais informal do jazz, permitindo que o público a possa ouvir num ambiente mais direto e próximo dos músicos. Este ano, as jam sessions no Convívio Associação Cultural (08 a 10 novembro) e no Café Concerto do CCVF (15 a 17 novembro) serão lideradas pelo contrabaixista e compositor Matt Ulery que virá acompanhado por jovens instrumentistas da cena jazzística de Chicago, como o pianista Rob Clearfield, o saxofonista Greg Ward, o baterista Quin Kirchner e o virtuoso violinista Zach Brock. As habituais oficinas de jazz decorrem de 12 a16 de novembro (com data limite de inscrição até 07 de novembro), consistindo numa experiência única de trabalho criativo com músicos de elevada qualidade técnica, envolvidos num dos contextos mais fervilhantes da criação jazzística contemporânea. Tal como as jam sessions, são dirigidas pelos músicos residentes que se deslocam propositadamente dos EUA a convite do festival, fixando-se em Guimarães durante duas semanas. Os bilhetes para os concertos do Guimarães Jazz 2018, assim como as assinaturas do festival, já se encontram à venda, podendo ser adquiridos, como habitualmente, nas bilheteiras do Centro Cultural Vila Flor, do Centro Internacional das Artes José de Guimarães e da Casa da Memória de Guimarães, bem como nas lojas Fnac e El Corte Inglês, entre outros pontos de venda, e na internet em oficina.bol.pt e www.ccvf.pt, onde pode ser consultada toda a programação do evento.

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