‘Roubam-se beijos… Ensemble’ no claustro de São Bento da Vitória

Os espectadores sentam-se em cadeiras transparentes espalhadas pelo espaço e que apresentam uma disposição em círculo face ao espaço nuclear de cena: onde se vislumbra algo que se assemelha a um lago/fontanário e que por aproximação poderia ser como o actual da Praça do Marquês, no Porto (o antigo da Praça D. João I e que foi para ali trasladado). Mas como vamos poder verificar, está seco.

Se é uma fonte, é dos desejos pela certa. Paulo Freixinho acerca-se de Emília Silvestre e beija-a com alguma impetuosidade. A génese do espectáculo afirma-se e dá o mote para um incessante jogo do ósculo. Ecoa um arfar, percebe-se que o universo pelo qual somos levados a viajar ao longo de aproximadamente uma hora é poético e onírico.

Emília Silvestre circunda o tanque no rebordo cimeiro e o diálogo que trava com Paulo Freixinho configura um desnível de patamares de conversação dos personagens que os actores interpretam.

Em seguida estão os dois no interior do tanque, de costas voltadas um para o outro, qual casal em pleno quotidiano, e espalham cremes: de barba no caso dele e um cosmético para a pele, no caso dela. Trocam um beijo e de certa forma trocam de cremes pelo resultado desse mesmo beijo. Percebem-se infidelidades, intensidades voluptuosas e divagações dos personagens por entre o som de clarinetes.

É o primado do teatro da palavra sobre as tipologias de representação que vivem de uma deriva para um certo barroco cénico. As palavras assumem as texturas ondulantes dos afectos e os actores banham-se de uma espécie de argila balsâmica.

A dramaturgia, encenação e cenografia de Jorge Pinto deixam fluir a alma dos actores em cena. Ainda assim há momentos de alguma plasticidade expressiva, jogos de sombras que nos envolvem o olhar e aquele momento final em que do tanque/fontanário/poço… vulcão se expelem figuras corpóreas e brotam criaturas de desenho anatómico.

A soma de contributos literários para o que se vê em cena é de peso, com excertos de textos de Michel Deutsch, Ruy Belo, Álvaro de Campos, Manuel António Pina, Mia Couto, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Maria Teresa Horta, José Luís Peixoto e Ana Luísa Amaral.

Emília Silvestre e Paulo Freixinho estão bem nesta incursão livre, com o seu quê de experimental, e a aposta em empurrar gente mais nova para ‘o palco’ num espectáculo com este formato adequa-se e por isso faz todo o sentido premiar a presença de Bárbara Pais, Maria Faria e Sara Pacheco, bem como a de Maria Inês Peixoto e Raquel Cunha.

Despedimo-nos do espaço com um sublinhado reflexivo que nos remeteu para um outro “Beijo”, o de Gustav Klimt, afinal Freud também andou por aqui.

O espectáculo pode ser visto hoje, sábado, às 21h00 e amanhã, domingo, às 16h00, no Mosteiro de São Bento da Vitória.

Texto: João Arezes

Fotos: ©Ricardo Pinto