fotografias cedidas pelo Teatro do Bolhão

“Inquietações” é o último trabalho da coreógrafa Joana Providência, uma coprodução entre o Teatro do Bolhão/ACE e o Teatro Municipal do Porto. Um espectáculo de dança que espelha na acção e no(s) movimento(s) toda a tensão social vivida na actualidade, com a questão do desemprego à cabeça. O Global News foi assistir a um dos ensaios e testemunhou o que todos poderão ver hoje, sexta-feira, às 21h e 30 e amanhã, sábado (29 de Outubro), às 19h00, no palco do Rivoli. Pode a dança ser interventiva? A entrega dos intervenientes no estrado reitera e espelha uma convicta resposta positiva à interrogação.

Duas caixas com um buraco rectangular no fundo configuram um habitat urbano e simultaneamente simbolizam o indivíduo a viver fechado em si mesmo num meio urbano, acompanhados e sós ao mesmo tempo, numa relação em que os elementos dispensam a condição de solidariedade e a vivência em comunidade, o estado dos corpos poderia ser o gasoso, onde ‘as moléculas-bailarinas’ estão distanciadas entre si.

Há uma expressividade corporal vibrante nos bailarinos. A subida a uma das arestas da caixa mais parece uma tentativa de escalada social e o consequente desassombro. O individuo e a relação atomizada do social surgem-nos com alguma nitidez, há uma espécie de luta constante num ambiente algo cinzento, da refrega e da batalha quotidiana do dia-a-dia por um lugar ao sol sai-se cambaleante. A música auxilia a ambiência pesada, naquele tom minimal, cria intensidades e cadências diferenciadas de ritmo.

fotografias cedidas pelo Teatro do Bolhão
fotografias cedidas pelo Teatro do Bolhão

As caixas mostram-se versáteis enquanto habitats desmontáveis. Pressente-se um vazio, um isolamento. Joana Providência explica a abordagem “Na verdade, quando comecei a pensar neste trabalho estava muito longe de adivinhar o que ele viria a ser. Foi muita preocupação, no sentido de que à minha volta o desemprego levava a condições muito precárias de vida”, sustenta a coreógrafa. E prossegue “E isso é uma coisa que me angustia muito e que nos nossos dias está muito presente. A pobreza na nossa sociedade é uma coisa muito escondida. É algo que existe, mas que não se quer assumir.” E remata: “Todos devemos fazer alguma coisa, pois não compete apenas ao Estado fazer algo.”

Instada a pronunciar-se sobre se o público poderia encarar este trabalho enquanto manifesto artístico, Joana não se fez rogada e sustentou “Nesse sentido sim. No sentido de denunciar essa realidade. Fazer as pessoas olhá-la e pensá-la. Aproximar as pessoas da realidade que existe nas pessoas que estão e vivem na rua. Que o trajecto das suas vidas afinal levou-as para outros sítios. É fazer as pessoas pensarem nisso.”

fotografias cedidas pelo Teatro do Bolhão
fotografias cedidas pelo Teatro do Bolhão

O vórtice de uma vida em espiral, destituída de pausas no trabalho e forçada a um ritmo imparável, a dependência existencial dos bens materiais, os caminhos da felicidade, está tudo lá em cima do palco, tal e qual como nas nossas vidas. “Inquietações” trabalha a incerteza do lugar que tomamos na sociedade, do que tomamos por felicidade, do que tomamos por vida.