Pedro Mota (à esquerda) e Tiago Talone

O que é que estava a faltar ao mercado para que pudessem entrar com a vossa cerveja?

Tentando ser objetivo, começar por dizer que nós em Portugal temos um mercado que é quase unico em todo o mundo. Por ser um mercado que funciona em duopólio. Se andarmos por esta Europa fora, não encontramos nenhum outro caso onde existam apenas duas grandes empresas e que por sua vez têm duas grandes marcas.

Há um conjunto de fatores ao longo da história, no setor cervejeiro em Portugal, que levam para este duopólio, assim como também, a partir de uma determinada altura, passou a haver um conjunto de fatores que levam a que hoje haja oportunidade para o aparecimento de novas marcas. Enumerando esse conjunto de fatores, as duas marcas conhecidas no setor cervejeiro português, a partir de 2005/2006 entraram numa competição muito agressiva entre as duas marcas.

E desde essa altura fizeram grandes investimentos em comunicação, até então havia uma marca que comunicava os seus valores focando-se na música, a outra no futebol. Mas a partir dai, começou a ser frequente ambas as marcas a comunicarem a partir destes dois territórios.

O consumo de cerveja é muito social, é um conjunto emotivo. É evidente que é preciso ter um produto de qualidade, mas depois em cima desse produto é preciso que haja links que permitam que a pessoa se identifique com a marca. E penso que foi isso que aconteceu em Portugal em 2005/2006. As marcas passam a comunicar os mesmos valores e entram numa competição de preço para poder chegar mais longe, e para poderem dizer que têm mais cota de mercado. E a partir dai começaram a vender cada vez mais barato para poderem chegar a mais gente.

Ou seja, num determinado momento estas duas marcas chegam a uma situação de cada vez mais custos, cada vez menos proveitos. Porque estão a vender mais barato e por ser o tipo de cerveja que é, industrial, e acente num modelo de negócio que é produzir com baixos custos e vender em grandes escalas. A qualidade da cerveja hoje não, ou seja, as cervejas são muito diluidas, são aguadas e a qualidade é percebida pelos próprios consumidores como de menor qualidade. E por esse motivo, desde sensivelmente 2012 tem havido uma maior procura de outro tipo de cervejas. O que até 2005/2006 era impensável.

Há outro fator que leva o consumidor a procurar outros tipos de cerveja. Hoje as pessoas são mais atentas a outros mercados onde a cultura cervejeira está mais patente. E portanto, uma vez em contacto com esses mercados internacionais, e de regresso a Portugal, as pessoas sentem essa falha de não haver mais e outros tipos de cerveja. Por isso, desde que começamos este projeto, temos estado atentos a este movimento e quanto mais estudamos sobre o mesmo, mais acreditamos que há espaço para o aparecimento de novas marcas.

De certa forma, desde 2012 até à data de hoje têm vindo a aparecer muitas marcas de cerveja. Li recentemente que o valor do nicho de mercado chamado cerveja artesanal, em Portugal, já vale mais de cinco milhões de euros.

Existem duas marcas de cerveja que dominam o mercado. E existem cada vez mais cervejas artesanais. Como pensam ganhar mercado no meio de tanta cerveja?

Fazendo a comparação com outros mercados internacionais, aquilo a que nos estamos a propor não é nada de novo. Olhando para os mercados com maior tradição cervejeira, nitidamente dividem-se em três distintos segmentos: no topo temos as cervejas industriais, na base temos a chamada micro cervejaria, ditas cervejas artesanais. O que ainda não há em Portugal é um segmento que está entre estes dois mundos, que é o segmento das cervejeiras regionais. Falamos em qualidade. Para mim, uma marca tem sucesso quanto melhor conseguir conjugar os seus fatores. Saber fazer produtos com enorme qualidade e em cima disso saber comunicar bem a marca.

O que quer dizer com a expressão cerveja regional?

A palavra essencial é a proximidade. Nós vamos ter uma fábrica no centro do Porto, que ao mesmo tempo tem a porta aberta aos consumidores e que se propõe vender diretamente a uma região, neste caso é a região Norte. Dessa forma teremos sempre uma venda direta e isso só é possível num raio regional. E é normalmente este tipo de empresas que têm como missão promover a cultura cervejeira. Não é por acaso que em Portugal contamos apenas com dois tipos de cerveja. Temos duas marcas com o mesmo tipo de cerveja, a vulgarmente chamada de cerveja branca. Esses dois tipos de cerveja têm mais de 90% de mercado. Depois falamos das cervejas pretas, das ruivas que têm uma expressão muito pequena.

E porque estão tão confiantes em apresentar produtos de maior qualidade?

A qualidade de uma cerveja é o resultado da conjugação de três fatores. As empresas industriais trabalham muito bem dois desses fatores. Pelo contrário, as pequenas empresas têm o control do terceiro fator. Refiro-me á qualidade das materias primas, refiro-me à experiência para saber fazer boa cerveja e refiro-me aos equipamentos em si.

As empresas industriais têm melhor tecnologia e equipamento e têm quadros mais experientes. Mas por serem empresas focadas em baixos custos e grandes volumes, na sua formulação não são consideradas as melhores seleções de materias primas. Olhando para as tais micro cervejeiras, compram sempre as melhores materias primas, mas a maior parte destes projetos não são liderados por pessoas que tenham vindo do setor cervejeiro.

Nós na Fábrica de Cervejas Portuense dizemos com convicção que iremos entregar ao mercado produtos com uma qualidade superior à que se assiste no mercado nacional, porque até à data somos a única empresa que conseguimos garantir a conjugação daqueles três fatores. Este projeto nasce pela mão de dois empreendedores com experiência no setor cervejeiro. Conta com uma equipa de pessoas com exepriência no setor cevejeiro. Tem um investimento sério e grande em equipamentos que garantam as mesmas condições que as fábricas mais industriais, mas para uma escala mais pequena. Temos todas as condições para oferecer ao mercado uma cerveja com diferente qualidade.

Como vai ser a vossa cerveja?

Todos os nossos produtos têm em comum a particularidade de respeitar as verdadeiras e tradicionais receitas cervejeiras internacionais. São feitas 100% à base de malte de cevada e respeitam essas formulações. Vamos começar com cinco tipos de cervejas diferentes e temos em perspetiva para os próximos anos, continuarmos a lançar mais. A estratégia da marca passará muito por ai.

Relembramos que na altura em que foi feita a entrevista, não se sabia qual a marca da cerveja nem que tipo de cervejas iam existir. Mas à data de hoje já todos sabemos que a marca se chama Nortada e tem vários tipos de cerveja. Finalmente abriram ao público as instalações da Fábrica, na Rua Sá da Bandeira, no número 210, local onde se pode degustar qualquer uma das cervejas, com pratos a acompanhar as mesmas.

A Família Nortada

Estas são as cervejas que fazem parte do cardápio.